Etnomatemática e a prática escolar.[1]

Por: Adalberto da Silva Santos


Entendendo a Etnomatemática como um campo de conhecimento e pesquisa da Educação Matemática, faz-se necessária sua contextualização. Aqui a Etnomatemática será discutida como uma perspectiva metodológica da Educação Matemática, ou seja, será dado o enfoque para o ensino da Matemática a partir dela.  

Para tal vou partir de uma situação que ocorreu quando exercia a profissão de Inspetor de Equipamentos no Polo Petroquímico de Camaçari na Bahia, onde era possível presenciar diversas atividades e diálogos de cunho matemático, porém os envolvidos utilizavam conceitos e modus operandi comum àquele grupo específico que era constituído por caldeireiros que não necessitavam ter o Ensino Médio, até engenheiros de diversas áreas. O autor Roberto Sidnei Macedo traz uma reflexão muito interessante sobre esses saberes peculiares:

Os saberes da experiência resultam do vivido pensado. Acrescente-se, que a compreensão da experiência só se fará por atos de compartilhamento de sentidos e significados. Tendo como fonte fulcral a vivência singular dos sujeitos na sua emergência existencial e sociocultural, a experiência se estrutura como denso e complexo processo de subjetivação de tudo que nos acontece, que nos passa, mediado por desejos, escolhas e intenções conscientes ou não, lucidas ou erráticas, plasmadas num certo tempo, mas, também, tocada intensamente pela impermanência (MACEDO, 2015, p. 19)

Durante a fiscalização de um serviço de pintura em equipamentos industriais, tanques cilíndricos para armazenamento de líquidos diversos, esferas para armazenamento de gases, bombas, compressores. O encarregado da equipe de pintura era o responsável por informar a área total pintada para que a empresa pudesse efetuar o pagamento e ele fazia isso com uma rapidez incrível. Como os equipamentos tinham diversos formatos geométricos, isso causou bastante curiosidade de como aquela tarefa era realizada, o encarregado informou que “cubava” todos os equipamentos. Assim, ficava mais fácil obter a área total pintada. Esse depoimento só fez aumentar a curiosidade, o que gerou o seguinte diálogo:

– O que significa cubar?

Ele respondeu:

– Independente da forma geométrica do equipamento, eu o imagino, dentro de uma caixa com o formato de um paralelepípedo e aí determino a área de cada face do paralelepípedo, somo e encontro a área total.

Então questionei:

– Mas aí pode haver perdas tanto para mim como para você? 

Ele respondeu:

– Mas uma compensa a outra e é a prática aceita para não demorar muito o serviço e “facilitar o cálculo”.

A descrição acima, feita pelo encarregado do serviço de pintura, consiste no conhecimento matemático de figuras geométricas espaciais inscritas, no caso específico, inscritas em um paralelepípedo que segundo Manoel Rodrigues Paiva (2010, p.541) assim define: “Uma figura geométrica espacial está inscrita em um poliedro se, e somente se, tangencia todas as faces do poliedro”, conforme exemplo representado pela Figura 01.

Figura 01: Esfera inscrita num cubo.

Fonte: http://blogdoenem.com.br/inscricao-e-circunscricao-da-esfera- matematica-enem/

(modificada)

Quando o encarregado menciona que é para “facilitar o cálculo”, ele estava se baseando nos seguintes saberes, um paralelepípedo é um prisma reto retângulo conforme Figura 01, para calcular a sua área total, basta utilizar a seguinte expressão matemática: S = 2(ab + ac + bc), na qual a,b, e c são as dimensões das arestas do paralelepípedo dadas em unidade de comprimento, para calcular a área de uma figura inscrita a ele teria que utilizar a fórmula específica da figura. No exemplo dado, a figura inscrita é uma esfera, que teria que utilizar a seguinte expressão para o cálculo da área da superfície: , na qual representa o raio da esfera, dado em unidade comprimento, esse cálculo foi considerado mais difícil pelo encarregado, em decorrência de muitas vezes em uma indústria a medida interna de um equipamento é de acesso restrito.

            No exemplo citado, o encarregado de pintura fez uso dos saberes desenvolvidos na sua prática profissional, sem desprezar os saberes acadêmicos, na busca de dar solução imediata a um problema cotidiano. Daí vem a importância da valorização dos dois saberes,            nesse aspecto, Knijnik, (2004, p.74) versa o seguinte:  “Não se trata de glorificar ou exotizar os saberes populares, nem tampouco tomá-los como ponto de partida para aquisição dos saberes acadêmicos”. A mesma autora ainda nos apresenta mais uma reflexão quanto à importância de cada saber, não menosprezando um em detrimento do outro, muito pelo contrário, insinuando que podem conviver em harmonia, cada um com a sua relevância.

Não há um relativismo exacerbado, uma visão ingênua da potencialidade de tais saberes populares no processo pedagógico. Nele, as inter-relações entre os saberes populares e os acadêmicos são qualificadas, possibilitando que os adultos, jovens e crianças que dele participam, concomitantemente compreendam de modo mais aprofundado sua própria cultura e tenham também acesso à produção científica e tecnológica, contemporânea. (KNIJNIK, 2000, p. 129).

Daí podemos perceber a importância dos saberes trazidos pelos discentes num momento de desenvolvimento de conhecimentos específicos em sala de aula, não impondo o saber acadêmico nem menosprezando o saber do senso comum, ou o saber construído a partir da sua prática de vida e/ou profissional.

Referências:

KNIJNIK, G. Etnomatemática na luta pela terra: uma Educação que ‘que mexe com as tripas das pessoas’. In: Fossa, John. (Org.). Facetas do diamantP: ensaios sobre educação matemática e história da matemática. 1ed.Natal: Editora da Sociedade Brasileira de Educação Matemática, 2000, v. 1, p. 119-135.

______. Itinerários da Etnomatemática: questões e desafios sobre o cultural, o social e o político na educação matemática. In. KNIJNIK, G.; WANDERER, F.; OLIVEIRA, C. J. de. (Org.) Etnomatemática: currículo e formação de professores. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004. p. 219 – 238.

MACEDO, R. S. Pesquisar a Experiência: Compreender/Mediar saberes e experiências. Curitiba: Editora CRV, 1ª Ed, 2015.

PAIVA, M. R.; Matemática: Paiva. São Paulo: Moderna, 2010. 2ª Ed, vol 2.

[1]  Artigo baseado na dissertação de mestrado do autor: Etnomatemática: intervenções pedagógicas, a partir de práticas do “ambiente da construção civil”, Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação Gestão e Tecnologia Aplicada na Educação, modalidade profissional, da UNEB.