CONTAR HISTÓRIAS: EIS A ARTE

Por : Isabela Severo

Desde muito pequena ouvi histórias. Desde muito pequena, entrei no universo da contação de histórias guiada por minha avó paterna, Dona Elza Nazareth (in memoriam), que me conduzia por este mundo numa hora própria. Deixava-me na beira do sono, entre os contos e os sonhos que me permitiam materializar as histórias que ouvia. Era o momento do dia que esperava e que mais gostava. Conheci muitas histórias, muitos personagens, muitas possibilidades…. Ouvi diversas vezes as histórias que minha avó inventava, recriava, reproduzia como leu ou ouviu. Quando fecho os olhos ao lembrar-me deste momento, remeto-me a colcha de chenile vermelha, ao escurinho do quarto e a voz embalada de minha avó, que começava as suas histórias dizendo “Era uma vez…”.

De acordo com os ensinamentos de Betty Coelho (1999), todos apresentam uma memória afetiva de uma história que ouviu na infância. Muitas vezes, essa história é a chave do portal mágico que nos leva ao passado, ao momento mais agradável da infância. “Afinal, quem não se lembra de alguma história ouvida na infância?”

Assim, é importante salientar como o papel do contador de histórias ganha um enorme significado para aqueles que o permitem invadir suas almas e os levar para o mundo do imaginário. O contador de histórias, então, constitui-se a partir do contato com aqueles que te ouvem. Porque para cada ouvinte há um contador ideal, da mesma forma que para cada contador existe um público imaginado. 

É desta sinergia que a contação de história se mantém viva. E essa arte ultrapassa o tempo e o espaço, ganhando formatos diferentes para alcançar o seu objetivo, mas sem perder a essência.

Pensando-se na formação de um contador, no momento em que uma história lhe chega aos ouvidos e o convida a verbalizá-la, Coelho nos estimula a refletir que mesmo, muitas vezes, em se tratando de um dom inato, há também a possibilidade de se perceber contador, a partir do momento, em que a sensibilidade lhe ponha diante de pessoas que queiram ouvir o que ele tem para contar. É neste momento que nasce o contador.

Vislumbrando o caminho de um professor de Educação Infantil, ele se torna um contador de histórias no exato momento em que adentra sua sala, pois esse mundo é permeado pelo universo lúdico-imaginário da criança, e seus alunos tornam-se logo os seus primeiros desafiadores-estimuladores, desejosos para ouvir da boca do professor-contador o “Era uma Vez!”

Quando essas palavras mágicas são proferidas, o espaço da sala de aula se transforma, as crianças se calam e se põem em posição de escuta, uma escuta diferenciada: sensível. O mundo se torna aquela história e naquele momento nada mais importa. O enredo leva todos os envolvidos para uma outra dimensão. Os personagens são materializados e quase podem ser tocados. Surgem os cheiros, as cores, os sons. Tudo se torna possível quando o professor abre a boca e de sua voz surgem inúmeras possibilidades.

Contação de Histórias | Escola Aberta do Terceiro Setor

Junto ao professor-contador nasce o interesse de ser pesquisador, pois contar história é “coisa séria”. Histórias empoeiradas no sótão do esquecimento ressurgem e ganham vida e significado para aqueles sujeitos envolvidos no processo de contação, contador e ouvintes. Nesse espaço de tempo os olhares se modificam, ampliam-se e se direcionam para ângulos até então inexplorados. Há uma variedade de necessidades a serem supridas pelas histórias selecionadas, estudadas, planejadas para cada grupo de forma intencional. Porém, a verdadeira ordem está em deixar a história por si só tomar acento e reconhecer o que ela pode atingir.

Diz-nos COELHO (1999) que as histórias não podem seguir a exigência de um utilitarismo exagerado, em que ela deve servir para enfatizar mensagens, imprimir conhecimentos, disciplinar ou ser moeda de troca para barganhar acordos de bom comportamento. Ela por si só viabiliza o silêncio, o bom comportamento e tantas outras coisas pelo viés da fruição. Pelo prazer que a história possibilita, ela se encarrega de conduzir aqueles que se permitem a preencher as lacunas de suas próprias necessidades.

Neste diapasão, todo o contexto da contação de histórias constrói um contador. No âmbito educacional, esse contador é o professor que garante, a partir do espaço que destinou às histórias, sua verdadeira função: a de ser elemento de prazer, espalhando suas múltiplas potencialidades nos diversos campos e áreas de conhecimento.

Isabela Severo , Professora de Rede Municipal de Ensino, especialista em Educação e contramestra de capoeira.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *