A Avaliação e o Fio de Ariadne

A Avaliação e o Fio de Ariadne

Autora: Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo

A avaliação (…) é o fio da comunicação entre formas de ensinar e
formas de aprender… é conhecer o sujeito e seu jeito de aprender. Paulo Freire

É só quando se aproxima a avaliação do SAEB que as escolas se dão conta do quão estão perdidas nesse labirinto que em que se encontram atualmente. Metade homem, metade touro, a metáfora do Minotauro, na narrativa grega do enfrentamento entre o herói ateniense, Teseu, e o habitante sanguinário do Labirinto de Tebas serve à perfeição ao que representa enfrentar o “monstro” das avaliações externas. Não é para menos. A avaliação como ciência do SAEB se baseia nas evidências observáveis em desempenhos cognitivos coerentes com os recortes de uma matriz de referência como o essencial a ser observado. Ora, se nem o básico da proficiência escolar está sendo evidenciado no processo sistemático de educação, como não fazer a pergunta que não quer calar? Por que as entregas de resultados do trabalho escolar ainda se fixam em quantidade de coisas encaixotadas na memória dos alunos cuja finalidade é fazer provas a cada bimestre ou trimestre?

Apesar de todo o caos que se enfrenta quanto a essa oposição entre avaliações escolares e externas, parece que a ficha não está caindo sobre a necessidade de foco na avaliação como ciência, na mediação da aprendizagem pelas competências e habilidades, bases dos descritores do SAEB, do ENEM, do PISA e diretrizes da LDB, juntamente com os objetivos das aprendizagens estabelecidos nos componentes curriculares da BNCC. uhH

No entanto, a existência de boa base legal por si só, não resolve o problema desse “monstro” consistente que mora dentro da escola e a ameaça de fazer mais e mais vítimas sem que se busque o seu enfrentamento e consequente domínio. Já se vão quase duas décadas nessa empreitada embaraçante e a maioria dos sistemas escolares ainda se baseia em aprovação e reprovação sem base em evidências observáveis, não passíveis de monitoramento com diagnóstico e intervenção pedagógica consistente.

Enquanto isso e a essa altura, a figura do professor como detentor do conhecimento transmitido de modo expositivo, apesar de todas as evidências de anacronismo, não cede lugar a do professor mediador porque a avaliação é a “caixa preta” controladora de todas as práticas e rotinas escolares. Não há como sair desse labirinto sem formação continuada docente em serviço sobre avaliação por competências e habilidades.

Da mesma forma, sem foco no essencial do que a escola perdeu de vista – ler e escrever, interpretar textos e resolver problemas, não há saída à vista. Édipo, outro personagem da mitologia grega, adentra Tebas – metáfora do conhecimento, somente após decifrar o enigma da Esfinge.  Para que o professor mediador se apresente, com o Édipo que mora nele, há que reconhecer que coragem e altruísmo não bastam, ou que resistência e negação aos processos crítico-reflexivos de sua prática não o ajudam a se aperfeiçoar pedagogicamente e profissionalmente.

Na narrativa grega, Ariadne é a sábia estrategista que dá ao amado, Teseu, o equipamento da razão – a espada para lutar e vencer o Minotauro – e a estratégia – o fio para encontrar alternativas à ressignificação do processo: a saída. Quando um problema é complexo demais, encontrar esse fio em conjunto, no esforço coletivo dos agentes de transformação torna-se questão de vida ou morte.

Mediante tais constatações, não se pode mais prorrogar a compreensão e apropriação de estratégias capazes de derrotar o “monstro” da avaliação empírica e seus paradigmas engessadores da escola. Tal emergência coloca os educadores diante de uma realidade que exige mudanças paradigmáticas de alto impacto, pois essa realidade, não raro, apresenta aprendentes que, muitas vezes, tornam-se ensinantes e, em suas variadas expectativas, revelam-se contestadores em relação à organização formalística da escola.

Ademais, a garantia de aprendizagem como um direito do aluno vem a ser mais um propulsor da necessidade de investimento inadiável no professor, este Teseu moderno na maioria das vezes desencantado por estereótipos de abnegação e autossuficiência de saberes que o tem transformado em um ser solitário e resistente a formações sem foco no essencial, ainda mais sendo submetido a condições socioeconômicas escorchantes e ao pesadelo de sua depreciação profissional por setores político-ideológicos vicejantes na sociedade atual.

Portanto, o maior desafio a enfrentar é a formação de professores mediadores em substituição ao professor “ensina + dor”. O investimento das equipes consiste solidamente em oportunizar formações sobre aprendizagem à luz da Neurociência e da avaliação como ciência. Esse é o fio condutor de Ariadne. É na mão do professor que aprende constantemente e se aprimora a cada momento de aprendizagem, que se gratifica e é gratificado por isso, que o fio de Ariadne se faz na ação-reflexão da aprendizagem continuada, que o faz professor de si mesmo, apto, portanto, para aprender a aprender.

A circunstância do isolamento social escancarou a necessidade de atualização para além dos métodos e da tecnologia ao desvelar a disparidade do ensino convencional frente à necessidade de ajudar a transformar a realidade das pessoas. Escancarou a incerteza e a superficialidade, da qual a própria escola faz parte. Mas é dela que vem o novelo por onde se estende o fio de Ariadne.  É nela que moram as possibilidades de superação dos labirintos, cujas saídas precisam ser achadas com foco, inteligência e intuição. 

Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo

Professora da Rede Estadual de Educação, escritora, especialista em Avaliação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *