Quando o indizível nos toca

Imagem: Foto do arquivo pessoal de Marcus Leone Oliveira Coelho

Caros amigos,

Cá com meus botões, tenho pensado muito em coisas que falam, comunicam, tocam, se expressam com profundidade na lógica do indizível e que aparecem entranhadas em escritos literários. Pensar nisso, ao mesmo tempo que me inquieta, prazerosamente me acalma, se é que vocês me entendem. De vez em quando, mergulho no mundo sugestivo da arte feita com palavras e, nesse lugar, tudo é, ao mesmo tempo, mágico, belicoso, divertido, enigmático e instigante. Sabendo que a Literatura, não se mostra através de uma forma comum de linguagem, o que lemos e/ou escrevemos acaba nos transportando para um outro universo onde o sentir, o vislumbrar, o ressignificar das palavras e o imaginar nos remetem à compreensão subjetiva de ver o mundo em possibilidades. Segundo Marrone (1995, p.2) “…podemos dizer que o indizível (estético) não é possível de ser entendido como o oposto do dizível, mas como a sua específica condição de possibilidade”. E esse é o dizer da arte, da Literatura.

Refletindo sobre a mensagem literária e a perspectiva do indizível na mesma, lembrei de A terceira margem do rio, conto maravilhoso, enigmático e provocativo escrito por João Guimarães Rosa, um gênio da Literatura brasileira. Já na leitura do título dessa obra, somos impactados, tomados pela curiosidade e por uma reflexão investigativa: “A terceira margem do rio”, o que é? Existe uma terceira margem? O que isso nos diz? Ao ler a obra, por completo, considerando conteúdo e forma, compreendemos as mensagens estéticas do indizível literário e deciframos o que vem a ser então “a terceira margem do rio”. De cara, nesse contexto, não dá para considerarmos uma leitura objetiva, cotidiana, referencial sobre tal narrativa. Assim, a nossa compreensão de leitor só se dá quando (tal qual o personagem “Nosso pai”), nos libertamos do mundo cotidiano e tomamos posse de uma canoa (aspecto metafórico) para navegar nas possibilidades subjetivas inerentes à linguagem estética. Nesse sentido, nos deparamos com as sugestões poéticas da obra e, através de uma leitura crítica, sensível, buscamos entender e atribuir significado aos expostos poéticos.

Imagem: Foto do arquivo pessoal de Marcus Leone Oliveira Coelho

Mesmo percebendo a escrita (forma) peculiar, criativamente desenvolvida nos textos artísticos de Guimarães Rosa, percebemos, destacando alguns trechos do conto aqui citado, como o autor nos transporta de uma percepção verossímil da realidade cotidiana para o nível do indizível, das possibilidades poéticas, como podemos ver a seguir:

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa (ROSA, 1994, p.409).

Nessa citação de A terceira margem do rio, percebemos facilmente uma situação que representa a realidade de forma verossímil e que nos dá notícias do “dizível cotidiano” sobre o comportamento dos personagens. Contudo, no desenrolar da trama, temos uma transição para um mundo subjetivo, das possibilidades, para uma dimensão “inverossímil” que nos é apresentada através do indizível estético. E, nesse contexto narrativo, a canoa (perspectiva metafórica) é o acesso para esse  mundo enigmático.

E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.[…] Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho. (ROSA, 1994, p.409).

Já nesse outro trecho do conto, mediante leitura crítica, entendemos que o personagem “Nosso pai” embarcou para uma outra possibilidade de vida, diferente da que tinha. O se lançar no rio em uma canoa e fazer destes seu lar (perspectiva metafórica), nos sugere que podemos objetivar uma mudança radical de vida, rompendo com os padrões sociais estabelecidos e seguir em frente trilhando novos caminhos.

É, meus amigos, paro um pouco essa viagem por aqui e os convido para também embarcarem nessa canoa, serem tocados pelo indizível poético e experimentarem outras possibilidades de perceber e estar no mundo. Que tal, como passaporte para essa viagem, lerem  A terceira margem do rio, conto base desse texto? 

Sigamos e até breve!

Marcus Leone Oliveira Coelho, professor da rede estadual de ensino

Referências

ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: ______. Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413.

A literatura e o indizível

A terceira margem do rio

http://cogetes.epsjv.fiocruz.br/storage/Textos-e-Material-de-Apoio—4%C2%BA-Ano—Literatura—Gabrielle-n_5ee0d32b36f91.pdf 

O dizível e o indizível através de uma estética semio-linguística

https://www5.pucsp.br/cps/downloads/biblioteca/2016/marrone__g__o_dizivel_e_o_indizivel___atraves_de_uma_estetica_semiolinguistica__.pdf

Teoria da Literatura – Características e Funções da Literatura

GUIMARÃES ROSA: A TERCEIRA MARGEM DO RIO | YUDITH ROSENBAUM