Qual a importância da leitura para o aluno do Ensino Fundamental II?

Por: Jailma Lima

Por que o aluno deve ler o que a escola lhe propõe? O que isso acrescenta a sua vida?

Nunca pensei que responder a esta pergunta fosse algo tão complexo, já que sempre julguei muito importante que o aluno lesse e sempre fui uma incentivadora dessa prática. Contudo ainda não tinha refletido sobre alguns pontos relevantes que me levassem a questionar onde estaria o problema de leitura que tanto afeta as escolas públicas e implica nos resultados que temos das avaliações externas pelas quais passamos. O que percebi até aqui é que o problema não é a falta de leitura apenas, mas a forma como a escola  conduz as leituras feitas pelos alunos. De que forma os docentes têm aproveitado as práticas sociais dos alunos para significar seu conteúdo, seus princípios e sua metodologia?

A escola tem negligenciado as práticas históricas e sociais as quais os alunos estão submetidos. Ignora suas preferências e não abre espaço para suas experiências durante as aulas. Esta é uma prática tão comum e enraizada que os próprios alunos não consideram que as suas práticas de letramento sejam importantes para sua formação leitora.

Quantas vezes na escola utilizamos os textos orais ou escritos a que os alunos acessam (como produtores ou receptores) cotidianamente para abordarmos os conhecimentos textuais, linguísticos, estilísticos que fazem de um texto?

Diante desse contexto, e a partir dessas reflexões, nasce a dificuldade que encontrei para responder a este questionamento. Se o aluno já participa ativamente de eventos de letramento, por que a escola deve incentivá-lo a ler mais?

Primeiramente, é preciso fazer o aluno entender-se como leitor. E isso será possível, ampliando sua concepção de leitura e valorizando aquilo que ele lê, trazendo estes textos para o espaço escolar. Em seguida, a partir dos gêneros trazidos para a sala apresentar outros gêneros, buscando construir com a turma a compreensão e importância da produção de cada um desses textos, nada é dito por acaso, à toa, todo o discurso tem uma razão de ser e de existir e é dessa razão que nasce a importância da leitura. Não lemos tudo o tempo todo. Lemos o que nos interessa em cada momento de nossa vida. E é a partir desses interesses que nasce a importância de cada texto que lemos ou produzimos. É essa importância que devemos apresentar para nossos alunos.

destaque-coluna-literatura-como-arte-rompe-barreiras - Liceu Contemporâneo

Se o aluno está concluindo o ensino fundamental, se é um adolescente, se é negro, morador do subúrbio, quais textos lhe interessam nesta etapa de sua vida? O que as leituras que fará hoje ou no futuro podem contribuir com a sua formação? Que relevância , no seu processo de formação enquanto ator social,  terão as leituras que farão neste momento?

Eles podem ler para se informar, para se emocionar-se, para se entreter, para se cuidar, para conhecer seus direitos, para se conhecer melhor, para conhecer a sua história, para participar ativamente das questões sociais e políticas de sua rua, sua cidade, seu país, que lhe atingem diretamente ou ao seu grupo social. Assim, se tornarão empoderados em suas ações;  e em suas lutas e terão condições de expor as opressões e marginalidades a que estão expostos.

Ler é um ato político. Muita gente diz isso. Mas não esclarecemos para nosso aluno em que consiste essa atuação política quando lemos. A escola não faz isso. Há outras agências de letramento que têm apontado para esse papel da leitura e despertado nos jovens maior interesse pela leitura do que a escola. Como por exemplo o hip-hop (Souza, 2011, Freitas 2019), os coletivos urbanos e rurais, agremiações e associações.  Essas agências que estão fora dos espaços escolares se tornam espaços onde as práticas sociais de letramento destes indivíduos não só encontram espaço de acolhimento, mas se transformam em suas armas para lutar e garantir uma sociedade mais justa, menos preconceituosa e que reconhece os direitos e os espaços de todos na sua construção.

O que consideramos quando escolhemos um texto para levar para a sala de aula? Apenas o conteúdo programático da disciplina? Ou aliado a este conteúdo, selecionamos textos que levem nossos alunos a refletirem também sobre as suas vivências? Levamos textos que o provoquem e o tirem do lugar do senso comum? Levamos textos e utilizamos estratégias de leituras que o façam ir além do dito, contestarem os ditos e os não ditos? É preciso atentar para como essas leituras são significadas nas experiências desses alunos.

Referencias

SANTOS, José Henrique de Freitas. Linhas de fuga da prisão sem grades: o hip-hop como pedagogia antipanóptica. Em: SANTOS, J. H. F.; ASSUMPÇÃO, S. S. Redes de aprendizagens entre a escola e a universidade. Salvador: EdUFBA, 2019, p. 271-29

SOUZA, Ana Lúcia S. Letramentos de Reexistência: poesia, grafite, música e hip-hop. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

Mestre em letras, professora da Rede Estadual de Ensino.

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