A Linguística explica, visse?

A escolha do que eu deveria estudar na universidade tem muito a ver com a atitude de alguns dos meus professores, principalmente um de português e uma de inglês. Com eles, minhas dúvidas sobre as línguas eram atendidas e davam boas discussões, visto que eu tinha vindo do interior da Bahia para a capital, trazendo a minha fala regional e um fraco inglês, que eu aprendi sozinho, a partir da forma escrita.  

De vez em quando, durante as aulas, os colegas riam quando eu dizia coisas como jatium e paracé, mas o professor João me apoiava, legitimando a palavra e dizendo que eram tupi-guarani, coisa que eu ainda nem sabia! A professora Lúcia, por sua vez, quando eu tentava ler as frases escritas no quadro, me ajudava, enquanto silenciava os que caçoavam (mas numa boa) da minha pronúncia. É que eu lia com base no som das letras do nosso português. E aí o give e o get, por exemplo, saíam como jivi e jeti e, até eu, caía na risada. Como inglês não reprovava, talvez, por isso, não era levado tão a sério.

Lúcia e João formariam uma boa dupla: ela nos ensinava com White Wings, a versão em inglês de Raul Seixas para Asa Branca e João gostava muito dos versos de Patativa do Assaré, o compositor e poeta popular cearense. Eu disse “formariam”, porque eles nem se conheciam e foram meus professores em séries diferentes, um de cada vez. O que tinham em comum era a formação em Letras, a escolha que acabei fazendo, por causa deles. Quando lhes perguntei o que se estudava lá, me contaram e gostei. Falaram da linguística, das línguas e das respectivas literaturas. Logo, logo, a Linguística, viria a ser minha paixão, pois atendia a busca por compreender as diversidades regionais e suas características refletidas na linguagem.   Sobre a disciplina, assim define a Wikipédia:

Linguística (FO 1943: lingüística) é a área de estudo científico da linguagem. É considerado linguista o cientista que se dedica aos estudos a respeito da língua, fala e linguagem. A pesquisa linguística é feita por filósofos e cientistas da linguagem que se preocupam em investigar quais são os desdobramentos e nuances envolvidos na linguagem humana. O jornalista norte-americano Russ Rymer certa vez a definiu ironicamente da seguinte maneira:

A linguística é a parte do conhecimento mais fortemente debatida no mundo acadêmico. Ela está encharcada com o sangue de poetas, teólogos, filósofos, filólogos, psicólogos, biólogos e neurologistas além de, não importa o quão pouco, qualquer sangue possível de ser extraído de gramáticos.

Assim, em um de seus ramos  ― a Aplicada ― a Linguística investiga  as variações da língua portuguesa, contribuindo para a compreensão de nossa imensa diversidade linguística e cultural. Para exemplificar, respondi a um amigo de outra região do Brasil sobre o “visse” nordestino. Ele perguntou assim:

― Por que o nordestino fala tanto “visse”?  

Eu respondi: 

― Da mesma forma que os demais brasileiros falam “viu”. 

Trata-se, portanto de uma interjeição de reforço para confirmar se a pessoa ouviu/entendeu o que você falou.

Os nordestinos (do norte da Bahia para cima, aproximadamente) usam o pronome da segunda pessoa “tu”. E para “tu” o verbo é “ouviste”. Outra parte dos brasileiros usa o pronome de tratamento “você”. E para “você” o verbo é “ouviu”. E, muitas vezes, o verbo utilizado é o “ver” no lugar do “ouvir”, resultando em “viste” e “viu”.  Exemplo:

― Vou ali no mercado, visse? (ouviste?)

― Vou ali no mercado, viu? (ouviu?)

E aqui vai uma dica para quem se interessa pela investigação científica de fenômenos linguísticos: o que acontece na fala de alguns nordestinos é uma queda da consoante “t”, em determinados contextos. Como assim? O “t” simplesmente desaparece no pretérito perfeito, na segunda conjugação. Mas ATENÇÃO! É preciso reunir uma grande quantidade de amostras (recortes de falas) para poder confirmar a hipótese da transformação de ouviste, falaste, compraste, pagaste, etc. em ouvisse, falasse, comprasse, pagasse, etc.

Em A canção do sapo, por exemplo, o autor Jackson do Pandeiro (paraibano) canta as palavras sem o “t”, enquanto Alceu Valença (pernambucano) pronuncia o verbo como está escrito. Veja na tabela abaixo:

Jackson do Pandeiro (clique para ouvir)Alceu Valença (clique para ouvir)
É assim que o sapo canta na lagoa
Sua toada improvisada em dez pés
Tião?, oi, 
Fosse?, fui,
Comprasse?, comprei, 
Pagasse?, paguei
Me diz quanto foi:
Foi 500 réis
É assim que o sapo canta na lagoa
Sua toada improvisada em dez pés
Tião?, oi, 
Foste?, fui,
Compraste?, comprei, 
Pagaste?, paguei
Me diz quanto foi:
Foi 500 réis

Assim, considerando que ambos os artistas são nordestinos, não podemos afirmar que todos pronunciam as referidas palavras do mesmo modo, mas podemos dizer, sim, que alguns, a depender de sua região e origem de seus atepassados deixam o “t” cair na pronúncia. Menciono a origem dos antepassados, porque muitos desses vieram  do arquipélago dos Açores e o português falado naquelas ilhas guardam as características mencionadas. Os açorianos estão presentes tanto na região nordeste quanto em Santa Catarina. Isso mesmo: o “visse” também é ouvido no sul do Brasil!

Esse fenômeno de queda da consoante na pronúncia ocorre também em outras línguas. A professora Lúcia me ensinou que, no inglês, em listen (ouça)  e  castle (castelo) o “t” não se pronuncia. E até nisso ela casava com o professor João, como se planejassem juntos as aulas de inglês e português. Esses dois mestres me incluíram em suas aulas, com toda a minha territorialidade ― que era bem distinta da dos soteropolitanos de então. Ao ouvir o professor João recitar basta ver no mês de maio / um poema em cada gaio / um verso em cada fulô, versos de Patativa, eu me sentia contemplado, acolhido, incluído. Idem com a professora Lúcia que, ao trazer Raul Seixas para a sala, nos aproximava da “matéria de inglês” pela força de White Wings, tão forte quanto a original  Asa Branca do velho Lua. Este assunto, aliás, faz parte do episódio Línguas pra quê? da TV Anísio Teixeira, na série Cotidiano.

Para finalizar, peço que não confundam o “visse” nordestino com a palavra “vice”, que tem outro significado. Além disso, ao “perder” o “t”, a palavra se confunde com o pretérito do subjuntivo (como em se eu visse), mas isso é assunto para outro texto. 

Ainda, sobre diversidade linguística, saiba mais aqui mesmo, seguindo os links Diversidade linguística no Enem e Hipercorreção.

Até a próxima!

Geraldo Seara

Professor da Escola Pública Estadual da Bahia.