IAT no IV Simpósio de Leitura

Olá!

Você já ouviu falar em distopia? E literatura distópica? Esses termos permearam todo o  IV Simpósio de Leitura do Colégio Estadual Berilo Vilas Boas, em São José do Jacuípe, pertinho de Capim Grosso.

Mas o que é distopia?

Nas palavras da professora Ana Lúcia Santana, “as comunidades regidas pela distopia normalmente apresentam governos totalitários, ditatoriais, os quais exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social. Nestes estados impera a corrupção e as regras instituídas em nome do bem-estar coletivo revelam-se elásticas. As conquistas tecnológicas são utilizadas também como instrumentos de monitoramento dos indivíduos, da Nação ou de grupos empresariais” (SANTANA, Infoescola, grifo nosso).

Partimos para São José do Jacuípe, a convite da diretora do colégio, a professora Núbia Oliveira da Silva. Chegamos na quinta-feira (17), a tempo de assistir à primeira mesa composta, exclusivamente, por estudantes. Bastante seguros e esbanjando muita competência leitora, cada um apresentou e comentou uma obra literária a que teve acesso recentemente, com rico vocabulário, comum a quem lê muito. Era perceptível o discernimento deles sobre o tema deste Simpósio, ao desfilarem, com palavras, os paralelos entre as obras e o mundo. Foi assim que ouvimos o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell escaparem pelos lábios daqueles meninos e meninas, como setas que não erram o alvo.

Uma das estudantes participantes da mesa segurava um bebê no colo. Mesmo mãe de dois filhos e tão jovem, não abandonou os estudos. Ao contrário, ali estava expondo sua competência leitora, ao estabelecer paralelos entre a resenha crítica da obra que tinha lido e o preconceito que enfrentou em sua condição de mãe solteira. O livro que ela comentou foi Extraordinário de R. J. Palacio . Essa mesma estudante foi a que participou do Papo Correria com o governador, por ter lido 100 livros em um ano!

A última mesa da tarde contou com a presença da Professora Jan, doutoranda da UFBA, sob o tema Leitura, Resistência e Sentido. Além do que o nome da mesa sugeria, a palestra trouxe mais luz sobre o que precisamos aprender com as leituras que os outros fazem — e que fazemos também — de nossas peles escuras, dos discursos cristalizados e repetidos à exaustão. A professora Jan também sinalizou que é necessário reler as leituras de quem não traz na pele os estigmas, ou seja, é preciso compreender o lugar de onde falam, para ampliação do diálogo e consequente ensino. Muitas vezes, as pessoas não têm ideia da origem dos termos que utilizam e, simplesmente, os repetem, a exemplo de denegrir e inveja branca.

À noite, uma procissão de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, invadiu a escadaria e a quadra da escola, num belíssimo e inesquecível espetáculo.

No dia seguinte, sexta (18),  era visível o semblante dos que passaram a noite em claro, acampados na própria escola. O Instituto Anísio Teixeira (IAT/SEC) ofereceu duas oficinas: uma de produção radiofônica e outra de produção audiovisual. Ainda bem que havia atividades práticas para despertá-los, pois muito ainda estaria por vir.

E veio: uma brilhante leitura comparativa das obras Dos Filhos Deste Solo, de Nilmario Miranda e Carlos Tiburcio e Onde Está Meu Filho?, de  Chico de Assis (orgs). A professora apresentadora preferiu a encenação para tratar dos paralelos. Assim, sob o som das canções de Chico Buarque, cartazes com nome dos desaparecidos invadiram o pátio, enquanto uma mãe gritava por seu filho. Num pau-de-arara, um jovem ensanguentado foi trazido por seus algozes. A ideia era a de que ninguém se deixasse enganar pelo discurso distópico atual que, entre outras coisas, diz que a ditadura nunca aconteceu.

Na última mesa do Simpósio, sob o tema Protagonismo Juvenil e Narrativas o Prof. Dr. Pedro Paulo Rios (UNEB) e este signatário trouxeram mais reflexões sobre as obras apresentadas pelos estudantes.

Esta quarta edição do Simpósio de Leitura teve como homenageado o saudoso cantor e compositor Renato Russo. A obra deste grande artista esteve presente nas paredes e nos lábios, durante os intervalos com direito a karaokê, numa costura mágica e muito bem feita.

Parabenizamos todas as pessoas envolvidas, em nome das professoras Núbia e Alane, diretora e coordenadora, respectivamente.

Até o próximo Simpósio!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Educação da Bahia