Diversidade Linguística no Enem

 


Fig. 1: Nordestino. Desenho de Marcus Leone

Gosto muito de causos (assim mesmo, com u) e vou contar um: 

Um dia,  estava eu trabalhando, quando recebi um pedido de ajuda via mensagem de texto. O pedido era de um estudante que tinha vindo de outra região do Brasil e que estava dando continuidade aos seus estudos aqui na Bahia. O zap era assim:

           ― Manda aí o outro nome da batata da perna.

Numa rápida pesquisa, encontrei “pantorrilha ou panturrilha. Printei a tela do celular e mandei de volta. É claro que fiquei curioso com aquele pedido e, mais tarde, pessoalmente, procurei saber o motivo.  Aí, ele falou:

           Rapaz… a professora fala uns nomes diferentes. Ela fala um monte de coisa que a gente não entende.

           Como assim? ― Perguntei. 

Apontando pro próprio corpo ele foi dizendo: 

           Isso aqui é aqui é titela, espinhaço, bolacha do juêi; isso aqui é mocotó, canela, munheca, venta, pau da venta e pá… Mas agora a gente tem que dizer de outro jeito!

Achei muito interessante o ritmo da fala daquele meu amigo, quase em tom de cordel. Ele revelou muito de sua rica cultura naquele breve instante. As tais palavras “científicas” ele também conhecia, mas pelo fato de não fazerem parte de sua fala cotidiana, não vinham à memória facilmente. Pelo jeito dele, tenho certeza que conseguiu conquistar muitos amigos em sua turma, incluindo a professora de anatomia. Entretanto, em se tratando de avaliações formais, é preciso trocar os vários falares pelo português padrão. Só lamentei ter contribuído com a pesca ou cola, pois eu não sabia que aquele pedido (o da batata da perna) era para uma prova. Ele que tivesse estudado o suficiente para lograr êxito.

           Lograr êxito?! Crendeuspai! ― disse se benzendo ― Parece que engoliu o dicionário!!! ― complementou, sorrindo.

Entrei na brincadeira e troquei o “lograr êxito” por “se dar bem”.

          ― Aê! Agora falou minha língua! ― disse ele, satisfeito.

É claro que, até aqui, nossa conversa tinha o tom de brincadeira, mas sem qualquer juízo de valor. O exemplo tratado aqui sinaliza que a língua falada pelo povo difere da chamada norma padrão, seja no norte ou no sul. Como professor, tenho pensado sobre essa distância, refletindo sobre os termos que utilizamos nos enunciados das avaliações impressas que podem gerar dúvidas e que, muitas vezes, impedem os estudantes de lograrem o tal êxito. Aliás, o termo “lograr êxito”, é uma variante etária, que ocorre na fala de pessoas com mais idade, mas é também uma variante social ou diastrática, que depende do grau de instrução e/ou estrato social do qual faça parte o falante. As variações linguísticas também podem ser históricas, geográficas, situacionais, etc. 

Fig. 2: Dialetos do português
1. Caipira | 2. Costa norte | 3. Baiano | 4. Fluminense | 5. Gaúcho | 6. Mineiro | 7. Nordestino
8. Nortista | 9. Paulistano | 10. Sertanejo | 11. Sulista | 12. Florianopolitano
13. Carioca | 14. Brasiliense | 15. Serra amazônica | 16. Recifense
Adaptado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Dialeto_baiano

Assim, considerando que falamos variações da língua padrão, aconselhamos que vocês consultem as provas das edições anteriores do Enem, buscando compreender os enunciados de cada questão, uma vez que os textos seguem a norma culta da língua. Se precisar, utilize um bom dicionário (impresso ou online). 

Além de pedir que estudem mais sobre variações linguísticas, gostaria, também, de deixar um tema para reflexão:  Vocês já perceberam que os dialetos nordestinos aparecem na mídia, na maioria das vezes, para fazer rir? O que vocês acham disso? Será que isso alimenta o preconceito? Falaremos um pouco sobre isso no próximo texto.

Até breve!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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