Tecnologia na Educação, ferramenta ou metodologia?

 

Formação ministrada pela Rede Anísio Teixeira em Produção de Mídias na Educação com estudantes da rede pública estadual de ensino. Estes atuaram como repórteres da Cobertura Colaborativa no 4º Encontro Estudantil da Bahia.

 

Olá, pessoal! Tudo bem?

 

Hoje me peguei lembrando de uma vivência pedagógica de um professor com seus estudantes do ensino fundamental II, em uma escola pública municipal de Camaçari. Isso aconteceu há mais ou menos oito anos, já faz um tempinho, não é? Mas esse momento representou uma experiência interessante, certamente um divisor de águas na vida desse docente em sala de aula, no que diz respeito ao uso de tecnologias digitais na Educação.

Como uma das ações de um projeto educacional sobre combate ao  racismo, em uma exposição temática no auditório da escola, o professor, de maneira muito empolgada, colocou em prática o planejamento que tinha preparado para o momento. Levou um pequeno vídeo “Eine Information des Afro Asiatischen Instituts Graz” (que em alemão significa: uma informação do Instituto Afro-Asiático Graz). O mesmo tem duração de 47 segundos, e consiste em uma narrativa que, através de imagem e som, apresenta uma forte e interessante reflexão sobre o preconceito racial e também de como, infelizmente, este pode se apresentar “naturalizado” em muita gente.

Após a exibição do pequeno filme, o professor começou a mediar, com seus alunos do 9º ano, discussões sobre o tema e subtemas presentes no vídeo. A história era muito rica em termos de conteúdo, abordagem temática, e também tinha um formato audiovisual muito dinâmico (cortes rápidos, enquadramentos, ângulos e movimentos de câmera diferenciados). Logo no início da mediação, o professor perguntou aos estudantes sobre o que mais tinha chamado a atenção deles durante a narrativa. Então, um dos jovens presentes na sala disse que já conhecia o vídeo, pois já tinha visto, meses antes, em uma famosa plataforma digital. Em seguida, de forma muito segura e consciente, ele falou sobre o ritmo do vídeo, a boa associação entre a música e as imagens em sequência e sobre a importância dos cortes rápidos e mudanças de plano para a tensão, aspecto proposital e necessário presente na história. Pois bem, esse jovem, de forma crítica e muito consciente, já estava argumentando sobre o “fazer” e sobre a importância e os significados de cada ação presente nesse processo de realização audiovisual.

 

Workshop ministrado pela Rede Anísio Teixeira sobre Produção de Mídias na Educação com estudantes da rede pública estadual de ensino, no Colégio Estadual de Monte Gordo.

 

Mas o que esse relato tem a ver com Tecnologia na Educação, ferramenta ou metodologia? Enfim, caros leitores, tem tudo a ver. A fala e análise do estudante sobre o filme foi um insight para o professor, e também um exemplo claro de como nossos jovens estão lidando com as tecnologias digitais da informação e comunicação, sobretudo fora da escola. Enquanto muitos ainda pensam as tecnologias digitais, no contexto escolar, como suporte, dispositivo, ferramenta, os estudantes lidam com isso de forma naturalizada, relacionando muito bem forma e conteúdo. Nesse sentido, é urgente e muito importante que os professores se apropriem dessas tecnologias e as utilizem em sala de aula como processo metodológico mesmo.

A exemplo do que foi relatado anteriormente, o filme não deve ser trabalhado pelo professor, apenas como um suporte que apresenta um determinado conteúdo a ser superficialmente assistido em sala. O produto audiovisualvídeo tem que ser trabalhado enquanto mídia, linguagem e, considerando forma e conteúdo, como processo crítico de ensino e aprendizagem. Quando o professor entende que seus alunos conhecem e argumentam sobre a feitura de um vídeo e sua intencionalidade, estes, de forma apropriada, associam linguagem e conteúdo, e aquele percebe que existem outros processos significativos de aprendizagem que também, de forma crítica, colaborativa, contextualizada e ética precisam, urgentemente, fazer parte do contexto escolar.

 

Formação ministrada pela Rede Anísio Teixeira em Produção de Mídias na Educação com estudantes da rede pública estadual de ensino do Colégio Estadual Luiz José de Oliveira em Cajazeiras.

 

Pois é, leitores… Vocês devem estar se perguntando sobre o que mudou na vida desse professor após a interação que teve com seus alunos na aula em que exibiu o vídeo. A partir de então, o docente se sentiu positivamente provocado e, além de se dedicar, com afinco, aos estudos referentes às Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) na Educação, ele vem, no trabalho com os estudantes, potencializando a mediação, a autoria, a colaboração, a ética e a autonomia no coletivo escolar.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em sua quinta competência geral da Educação Básica objetiva, na mediação docente com o estudante, o seguinte:

“Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BNCC, 2018, p. 11)”.

 

Workshop ministrado pela Rede Anísio Teixeira sobre Produção de Mídias na Educação com estudantes da rede pública estadual de ensino, do Colégio Estadual Mestre Paulo dos Anjos, situado no Bairro da Paz.

 

Considerando o contexto social e comunicacional em que vivemos, se a escola e o professor conseguirem se conectar criticamente com o mundo e com os processos de informação e comunicação estudantil do século XXI, este espaço de aprendizagem se atualizará e fará mais sentido para a vida pessoal e coletiva dos sujeitos, sejam eles estudantes e/ou professores. A tecnologia aqui apresentada, já é algo corriqueiro entre os estudantes, faz parte da vida deles, e nesse sentido, a escola precisa, de maneira coerente, também se inserir nesse contexto. É através da boa mediação docente e do estímulo ao uso qualificado das TDIC pelos estudantes, que a escola, efetivamente, possibilitará aos jovens o protagonismo crítico necessário, dificultando assim, que estes sujeitos sejam muitas vezes subjugados no universo tecnológico em que vivemos.

Veja nos vídeos abaixo, estudantes da rede pública estadual de ensino produzindo conteúdo multimídia de forma crítica, autoral e significativa.

 

Por hora é isso, pessoal. Em breve refletiremos um pouco mais sobre esse tema.

Tchau! Até a próxima!

 

Marcus Leone Oliveira Coelho, professor da Rede Pública Estadual de Ensino

 

 Referências

http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/12/BNCC_19dez2018_site.pdf

MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. 16ª ed. Campinas: Papirus, 2009, p.12-17.

ROJO, Roxane; ALMEIDA, Eduardo de Moura (Orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012, 264 p. (Estratégias de ensino)

 

 

 

 

Publicações relacionadas

Tecnologia na Educação, ferramenta ou metodologia?

Nossos Colaboradores

%d blogueiros gostam disto: