Salvador – 470 anos de história entre cantigas e fissuras

Salvador completa 470 anos! O aniversário de uma velha e belíssima senhora deve vir acompanhado de grande festa e alegria! Os vestidos costurados com esmero e afeto devem cobrir o corpo dessa mulher onde habitamos todxs que estamos sob seus domínios. As cantigas de louvação devem celebrar a idade e a longevidade desse lugar especial para a história do Brasil. Mas… para festejar melhor, é preciso também curar feridas que a idade traz…

Cantar Salvador é algo que já fazemos, há muito. No início do século XX, mais precisamente a partir da transição entre as décadas de 20 e 30, com o rádio começando a ecoar suas primeiras ondas pelo ar, compositores como Dorival Caymmi e Ary Barroso, por exemplo, escreveram peças até hoje muito conhecidas sobre a Bahia e sua centralidade na São Salvador da Bahia de Todos os Santos, o pomposo nome completo da nossa soterópolis. Rainha do Mar e São Salvador (ambas de Caymmi), bem como Na Baixa do Sapateiro e No tabuleiro da baiana (ambas de Ary) são referência, quando se pensa em canções sobre a cidade de Salvador e sua cultura.

A portuguesa/carioca Carmem Miranda deu vida – como intérprete – a muitas cantigas para a Bahia, e o caso de O que é que a baiana tem? (Caymmi) é emblemático. Gravada para a trilha do filme Banana da Terra (1939), produzido por Wallace Down e dirigido por Ruy Costa, O que é que a baiana tem? traz curiosidades interessantes, como o fato de Dorival Caymmi ter feito, atrás das câmeras, a mímica que inspirou Carmem Miranda a dançar imitando trejeitos de uma baiana, na homenagem feita à Salvador, através de uma de suas figuras mais emblemáticas: a baiana de acarajé.

Com o passar do tempo, Salvador ganhou outras músicas. O Trio Elétrico nos anos cinquenta, os Blocos afro nos anos setenta, a Axé Music nos anos oitenta continuaram cantando Salvador por aí… Nessa história de celebrar, por outro lado, é interessante pensar também nas fissuras da cidade, não é? Quem mora em Salvador e não reclama de seu transporte urbano, por exemplo? 

Segundo dados do IBGE de 2016, Salvador possui uma frota de 9.103 ônibus em circulação, além de 4.375 micro-ônibus atendendo a população. A partir de 2014, em operação reduzida que se ampliou posteriormente, o Metrô de Salvador passou a operar, articulando operações de integração com os ônibus urbanos. O crescimento de uma cidade que já atingiu os três milhões de habitantes justifica um trânsito que tenha suas dificuldades. É preciso pensar – inclusive para a celebração dos 470 anos ficar melhor – por que esse crescimento não vem acompanhado de maior facilidade para se locomover!  

Quantos de nós não temos que esperar muito tempo para entrar em veículos sujos, lotados e desconfortáveis?! Infelizmente, disso, poucas canções falam! A beleza da Salvador desenhada por Dorival, Carmem e Ary não deve conviver com a realidade feia do tratamento que muitas vezes é dado à população da cidade, sobretudo a mais pobre e preta, não é?

A Baixa dos Sapateiros cantada por Ary Barroso hoje vive uma crise muito intensa, entre outras coisas por modificações vivenciadas no transporte público. Segundo a ALBASA (Associação dos Lojistas da Barroquinha e Baixa dos Sapateiros), a circulação de ônibus nos terminais do Aquidabã e Barroquinha diminuiu profundamente, de sessenta ônibus por hora em 2012, para 40 ônibus por hora em 2017, o que ajuda a provocar diminuição do acesso cotidiano a esse lugar por muitos habitantes da cidade. As reduções de frotas nos domingos e feriados e após as vinte e duas horas é um problema sentido por todxs que circulam pela cidade diariamente.

Essas são fissuras causadas pela dinâmica da cidade e por lógicas administrativas que precisam ser repensadas em diversos níveis. São problemas que fazem com que essa data – 29 de março de 2019 – coincida a alegria dos 470 anos com a necessidade de melhorarmos, enquanto espaço de civilização.

Vamos cantar o aniversário de Salvador sabendo que uma senhora de respeito merece atenção. Nós – habitantes dela – somos o que lhe dá alma e força. E como presente para ela, peço licença para compartilhar a gravação que fiz para a canção Essa Cidade, composta por Jarbas Bittencourt sobre essa terra onde pisamos dia após dia!

 

Sigamos!

Carlos Barros

Professor de História da Rede estadual de ensino.

Cantor de música popular.

 

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