BNCC e as disciplinas

Fig. 1: https://pixabay.com/pt/photos/livros-estudantes-biblioteca-1281581/

Olá!

Como todos já devem saber, 2019 será o ano de adaptação às mudanças propostas pela nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que define um número mínimo obrigatório de duas disciplinas e flexibilidade para outras. Como está posto, apenas português e matemática serão disciplinas obrigatórias nos três anos do Ensino Médio, enquanto as demais disciplinas serão oferecidas de modo interdisciplinar, a depender da realidade de cada região. O blog Ponto Didática nos faz um alerta ao dizer que “essa obrigatoriedade de ter apenas língua portuguesa e matemática é um caminho um tanto perigoso. É preciso tomar cuidado para não induzir que apenas estas disciplinas são importantes. Além disso, as demais disciplinas que serão oferecidas em caráter interdisciplinar e optativo correm o risco de não serem trabalhadas com qualidade, uma vez que não são obrigatórias e por sua vez não serão avaliadas.

Tenho percebido um ar de comemoração entre alguns estudantes, ao saberem que muitas disciplinas não estarão na lista das obrigatórias, como antes. Infelizmente, como nem todos podem prever o futuro, podemos recorrer ao histórico de muitas pessoas que, no passado, deixaram de estudar determinados conteúdos em seus currículos. Houve um tempo em que tínhamos duas opções de cursos nos colégios: Científico e Profissionalizante. Atraído pela promessa de um futuro emprego, eu embarquei na segunda opção, em 1976.

Fig. 2: Escritório antigo. https://pixabay.com/pt/photos/m%C3%A1quina-de-escrever-antigo-163990/

Meu curso era Habilitação Básica em Comércio. As disciplinas eram voltadas para o objetivo profissionalizante do programa. Assim, as aulas de matemática eram voltadas para a contabilidade, enquanto as de português eram voltadas para redação oficial, incluindo atas. As demais disciplinas apareceram apenas no 1° ano – e bem de leve. Não estudei as da área de humanas, nem química, nem física, como faziam os meus pares do curso Científico. Confesso que fiquei contente, por poder manter o foco apenas na área que eu tinha escolhido (ou que escolheram pra mim).

Sabem o que aconteceu? O mundo mudou!  Ao término do curso, já não havia mais vagas de auxiliar de escritório (o máximo que se podia exercer), mas apenas para office-boy – e sem carteira assinada. E agora, José? Uma grande chance de emprego apareceu pra mim, mas numa área totalmente diferente daquela para a qual eu tinha sido preparado. Mesmo assim, decidi enfrentar os testes de admissão. Neles, havia questões de inglês, física, química, biologia, geografia e muita história. Essas disciplinas tinham ficado de fora do meu currículo, mas o futuro empregador não estava nem aí pra isso. Felizmente, eu gostava muito de ler, graças ao meu primário bem feito. Foi o que me salvou.

Lembro de uma questão sobre um voo hipotético com destino a Copenhague e Joanesburgo. Perguntavam se as cidades estariam num mesmo continente, quais suas línguas e costumes (Pelé, na Suécia e Mandela, na África do Sul me ajudaram a responder).  Queriam saber, também, se eu tinha noções de física ao perguntarem sobre a ação do vento sobre a asa de um avião (aí lembrei das figurinhas que disputávamos no bafo-bafo). Queriam saber, até, minha opinião sobre Santos Dumont e os Irmãos Wright. Chutei muitas das questões, naturalmente, mas acertei muitas, tudo com base na minha visão de mundo, dos livros e de tudo o mais que li e vi.

Fig. 3: https://en.wikipedia.org/wiki/Santos-Dumont_14-bis#/media/File:14-bis_de_Alberto_Santos_Dumont.jpg

Finalmente admitido como aeroviário, nos primeiros dias compreendi o porquê das perguntas feitas no teste de admissão. Eles precisavam de jovens que pudessem manter uma conversa com passageiros brasileiros e estrangeiros e que pudessem resolver problemas. Já relatei, em outro texto, o espanto de um passageiro ao me ver trabalhando no check-in da empresa, pois a periferia não cabia ali. E sem o conhecimento que me foi retirado, aí é que eu não caberia mesmo!

Assim, colegas professores e caros estudantes, precisamos compreender e assimilar cada uma das dez competências gerais da BNCC. Aliás,  o conhecimento é uma das competências e, justamente essa, precisa contar com todas as disciplinas do currículo. Dentre as seiscentas páginas de todo o material produzido há trechos que realmente impressionam, por estarem em consonância com as transformações sociotécnicas que vivenciamos hoje. Mas temo pelos terrenos onde essa semente está sendo lançada. Que frutos darão?


Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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