Carnaval– Festa e Civilização musical na cidade de Salvador

Por vezes no centro de fevereiro, outras na transição para março, mas sempre presente, a cada ano o Brasil celebra uma festa que o identifica no mundo com bastante força. Estamos falando – claro – do Carnaval. Sobre esse tema, não podemos deixar de lado a Bahia e a cidade de Salvador como espaço associado à festa desde muito tempo!

Os versos das canções que definem o carnaval moderno/contemporâneo de Salvador nos levam a imagens de uma cidade/nação que remetem a uma espécie de paraíso de prazeres e alegria constantes. Da guitarra baiana aos tambores afros, Salvador é uma cidade que aglutina/dissolve/debate suas tensões no fazer musical.

“Carnaval não brigo, carnaval eu brinco / Desabafo com amor a minha dor / alegria desafia a violência /E na sequência do frevo eu vou, eu chego lá /
Cantando nosso enredo / Todo ano hino novo e sem medo / A história desse povo o hino vai contar”

 

Disco “Ligação”, de 1978

A letra é de Taiane, composição de Dodô, Osmar e Moraes Moreira. Ela é dos tempos de Dodô e Osmar, dois dos mais importantes criadores do carnaval de rua de Salvador. Eles foram os certeiros arquitetos do Trio Elétrico, que surgiu em 1950 com o nome de Fobica.

A Fobica foi uma adaptação de um carro da marca Ford, que tocou frevos com violão e guitarra baiana para um público ávido por diversão na histórica Rua Chile, no centro da capital baiana, no final de janeiro do mesmo ano. Desde então, esse carro de som com cheiro de alegria começou a tocar as almas e os corações de tantos que nasceram, habitam e/ou passam pelas terras soteropolitanas a cada início de ano.

O Trio Elétrico é gerador de inspiração para tantas músicas e canções sobre a festa baiana, tocando criadores da verve de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Armandinho, entre outros foliões-artistas que emprestaram ao longo do tempo suas expressividades para falar/cantar a euforia elétrica desse caminhão sonoro.

“Eu sou o carnaval em cada esquina do seu coração, menina / Eu sou o Pierrot e a Colombina / de Ubarana a Amaralina que alucina a multidão”

 

Eu sou o carnaval (Moraes Moreira / Antônio Risério)

O poema de Antônio Risério musicado por Moraes se constrói no ritmo da aliteração para tentar o desenho da cena da festa feito com tintas da canção. Não é demais lembrar que décadas antes, a cantora Carmem Miranda já cantava peças que também influenciaram o carnaval moderno da Bahia, como na beleza de Balancê, regravada em 1979 por Gal Costa no álbum Gal Tropical e “frevo-tri-eletrizada” por muitos artistas nas ruas do carnaval de Salvador.

Gal Costa – Balancê (João de Barro / Alberto Ribeiro)

A música de carnaval na Bahia pode ser comparada aos hinos de uma civilização pautada no desejo de superar as adversidades numa espécie de alegria efusiva. Quando – entre 1974 e 1975 – a negritude gritou sua necessária liberdade aos quatro ventos pelas ruas da cidade de Salvador sob a percussão do Ilê Aiyê e ressoou a beleza negra já presente desde os anos sessenta no Afoxé Filhos de Gandhy, a música que consagra essa civilização baiana ganhou em força e protesto.

“Branco se você soubesse o valor que preto tem, tu tomava banho de piche, branco / ficava preto também”

Assim compõe e canta Paulinho Camafeu, representando em ironia o brado anti-racista do povo negro-mestiço baiano contra – olha que contradição – o caráter racista de uma cidade que celebra a festa, mas ainda guarda sinais de um tempo escravista que precisa ser superado.

 

Ilê Aiyê (composição de Paulinho Camafeu), em gravação do

Bloco Afro Ilê Aiyê com a participação do cantor e compositor Criolo

Os anos oitenta do século vinte viram a música de carnaval ganhar o Olodum, com sua percussão de pretensões globais inaugurada midiaticamente com o grande sucesso de Faraó (composição de Luciano Gomes).

Olodum – Faraó (Luciano Gomes)

Essa década vê nascer também a nacionalização dos ritmos baianos de carnaval com o fricote de Luiz Caldas, a roda de Sarajane, a potência de Margareth Menezes, a latinidade afro-religiosa de Gerônimo, além da mistura definitiva do elétrico do Trio com o suingue dos toques percussivos afro-baianos. Se não conseguimos resolver as contradições sociais no carnaval, ele surge como um momento para encontrar soluções artísticas e para a diversão.

 

Margareth Menezes – Uma história de Ifá (Rey Zulu / Ytthamar Tropicalia)

Os anos noventa trazem Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Timbalada, diversas bandas do chamado gênero “Axé-Music”, novas negritudes, novos gêneros musicais, novidades que fazem o baiano gritar – por exemplo – que “o canto da cidade é meu”, como na parceria entre Tote Gira e Daniela. A gravação da canção “O canto da cidade” traz o encontro entre o compositor negro representante de setores populares da cidade e a intérprete branca que arregimentou a expansão comercial, potencializando o mercado da música carnavalesca contemporânea da Bahia.

Faixa do primeiro disco da Timbalada, lançado em 1993.

Atualmente, entre o pagode de “groove arrastado” e o arrocha que compete com os estrangeiros sertanejos na cena da festa soteropolitana, essa “civilização da alegria” é ainda cenário de conflitos históricos que aparecem constantemente nas ruas da cidade: pobreza, falta de infra-estrutura para os trabalhadores mais pobres, violência e segregação social que doem aos olhos e ao coração de todxs que se preocupam com o bem estar coletivo.

A letra de Invisível (Filipe Cartaxo / Roberto Barreto / Russo Passapusso / SekoBass), canção da banda Baiana System diz:

“Você já passou por mim / E nem olhou pra mim
Você já passou por mim / E nem olhou pra mim /Acha que eu não chamo atenção / Engana o seu coração / Acha que eu não chamo atenção”.

 

Baiana System – Invisível

É necessário lembrar sempre que o carnaval soteropolitano é também espaço para pensar sobre a alegria que não atinge com justiça todxs desse lugar chamado Salvador. Se a música do carnaval não pode querer transformar o mundo em sua totalidade, ao longo da história recente, ela vem traduzindo sentimentos, sensações, estados e propostas de nós – baianos – para nós e tantos outros a nos olharem.

Vamos cantar e dançar alegremente e com a intenção de uma “alegria que declara a revolução”?

Que o carnaval seja nosso elemento de transformação a partir da estética! Afinal, como dizem os versos de Gerônimo, “Já é carnaval cidade! Acorda pra ver”

Gerônimo – Lambada da Delícia

Ah! Sabia que na Rádio Anísio Teixeira você pode ouvir o quadro Gramofone e saber o que os estudantes artistas baianos estão compondo e cantando?

Acesse o link e escute a novíssima música da Bahia!

Carlos Barros
Professor de História da Rede estadual da Bahia e cantor de música popular.

Publicações relacionadas

  • Yes,in Bahia!22 de fevereiro de 2017 às 10:23 Yes,in Bahia! (2)
    Let's play, sing and dance, folks! Disco, Rap, Country, Rock, Pop Rock, Hip hop, Axé Music... Axé Music? Oh, yes! Carnival is coming! What […]
  • Novembros negros e a Educação na Bahia26 de novembro de 2018 às 15:46 Novembros negros e a Educação na Bahia (0)
    A canção Me abraça e me beija, de Gileno Felix e Lazzo Matumbi diz: "Vem vem, dia 20 de novembro / Se todo dia é dia santo meu bem...". […]
  • O racismo no Brasil: a questão do colorismo11 de junho de 2018 às 15:23 O racismo no Brasil: a questão do colorismo (1)
    O colorismo tem feito parte do debate sobre questões raciais no Brasil recentememte. Esse texto aborda o tema em algumas linhas.
  • Vamos contar um conto?26 de outubro de 2015 às 18:54 Vamos contar um conto? (0)
    O episódio em questão do quadro Ser professor, do programa Intervalo, fala sobre a arte de contar um conto. Neste episódio, apresentaremos […]
  • 6 de novembro de 2018 às 14:42 Curiosidades das eleições 2018 e o novo governo (3)
    Prezado leitor, tudo bem? Este ano tivemos eleições no Brasil para os cargos de Presidente, governador, deputado estadual, deputado […]
  • Que lei é essa?17 de maio de 2018 às 15:17 Que lei é essa? (2)
    130 anos depois da assinatura da Lei Áurea, como estamos de inclusão, reparação e representatividade?
Carnaval– Festa e Civilização musical na cidade de Salvador

Nossos Colaboradores

%d blogueiros gostam disto: