Em tempos de fake news, leituras críticas…

Fonte: Wikimedia Commons

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Está todo mundo falando em fake news, do congresso americano, ao seu Francisco, dono da quitanda aqui da rua. Ele me contou que foi vítima de uma fake news. Um conhecido lhe mandou um zap com a foto de sua esposa saindo de um hotel com um homem desconhecido. Ele brigou com a esposa e acabou se separando dela por causa disso. Tempos depois, descobriu que a esposa estava falando a verdade e que o conhecido que lhe mandou o zap tinha interesse em prejudicá-lo. Agora, a esposa não quer mais saber dele.

As fake news são os mais novos, ao mesmo tempo velhos, problemas da nossa sociedade. Novos, porque agora, difundidos pelas redes sociais e pelos dispositivos móveis, potencializam permanentemente o seu alcance de forma compartilhada e customizada. Velhos, porque a disputa pela verdade, pelo conhecimento e pela comunicação sempre fizeram parte da história da humanidade. Diante deste contexto, no qual estamos sendo constantemente formados pelas mídias digitais, se impõe o desafio ainda maior de fomentarmos leituras cada vez mais críticas dessas informações.

De fato a esposa de Francisco estava na frente de um hotel conversando com um homem desconhecido. Entretanto, ele preferiu acreditar que isto significava que ele estava sendo traído, ao invés de acreditar que se tratava de um encontro casual entre velhos amigos de escola, como foi colocado por ela na época. As fake news são a ponta do iceberg de uma questão que ultrapassa a discussão entre verdade e mentira. Os fatos podem ser verídicos ou falsos, as interpretações dadas aos fatos são diversas e condizem com os interesses de quem as produz. Tão importante quanto verificar a veracidade de um fato, é estar atento às interpretações que são elaboradas a partir dele, buscar compreender os lugares de fala, as estratégias de persuasão, os argumentos apresentados, os valores propagados e os interesses defendidos; perceber as estruturas simbólicas e materiais, que patrocinam a informação e direcionam a forma como o fato está sendo apresentado. Além disso, não podemos cair na tentação de acreditar apenas naquilo que concordamos, devemos pesquisar outras fontes, para ter acesso a diferentes, e as vezes contraditórios, pontos de vista.

Jornal O Globo noticiando o golpe militar de 1964

Jornal O Globo noticiando o golpe militar de 1964

Se estivesse atento a tudo isso, o destino de seu Francisco poderia ter tomado outro rumo.

O exemplo de seu Francisco serve como uma metáfora da forma como as fake news vêm abalando as nossas estruturas e relações sociais. Ao tratarmos deste tema, devemos ter em vista que o acesso ao conhecimento e à comunicação é um direito garantido pela constituição como uma condição necessária ao exercício da democracia e da plena cidadania. Neste sentido, fomentar a leitura e a escrita crítica de mídias digitais, se caracteriza como uma ação político-pedagógica, histórica e cultural da qual não podemos abrir mão.

Texto publicado originalmente na coluna de Anderson Rios do Jornal A Tarde do dia 27/08/2018.

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