Que lei é essa?

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Gravação para a série Cotidiano da TV Anísio Teixeira. Foto: Geraldo Seara

Entre as datas comemorativas do mês de maio se encontra aquela relativa à assinatura da lei que libertaria para sempre os africanos escravizados e seus descendentes. Assim, a cada ano, não nos faltam motivos para repensarmos essa história que gravita em torno da Lei Áurea e de tudo o que ficou de fora dela. Às vezes, ver de fora nos ajuda a enxergar melhor o que, de perto, fica nebuloso…

Já faz algum tempo desde que participei de um programa de intercâmbio entre professores brasileiros e americanos. Foi uma experiência enriquecedora, sobretudo quanto ao reconhecimento do que somos, e do que deveríamos ser como nação, em todos os aspectos.

Como intercâmbio pressupõe via de mão dupla, as instituições Fulbright / MEC tinham providenciado para nós homestays, ou seja, hospedagem em casas, para que pudéssemos não apenas vivenciar o dia a dia das famílias, como também contribuir, culturalmente, com os anfitriões. A família que nos recebeu tinha grande interesse por nossa língua e cultura, sendo esse, inclusive, o objeto de estudo de uma das filhas do casal, na Universidade de Washington. A jovem, quando em casa nos finais de semana, alugava fitas de vídeo com episódios de uma telenovela brasileira, hábito adquirido com outros brasileiros que já haviam passado por aquela casa. A ideia era aprender mais da língua, tal como falada no cotidiano e sobre nosso jeito de ser e de viver. Assistindo a alguns episódios junto com todos, eu ia respondendo às perguntas sobre os aspectos culturais e linguísticos do nosso português e seus sotaques.

Como a família já tinha visitado o Brasil e conhecia a nossa miscigenação, quiseram saber por qual motivo os negros nunca se destacavam nas telenovelas, sendo também muito poucos ou quase nenhum. Essa observação foi feita em função do que os telejornais de lá exibiam sobre nós, ao tratar do carnaval do Rio de Janeiro e também dos nossos ilustres jogadores de futebol.

Como alguém vivendo num país cheio de opressão racial como os EUA poderia pontuar a ausência de negros nas telenovelas brasileiras? Isso, inicialmente, nos pareceu um absurdo, estudiosos que éramos de algumas questões presentes naquele país. Entretanto, assistindo à TV local, com negros e brancos dividindo uma mesma bancada nos principais telejornais, assim como presentes nos filmes publicitários, nosso olhar para ali e para cá foi se modificando.

A segregação nos Estados Unidos é bastante visível, mas também o é a prática das políticas públicas advindas do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Quem já não ouviu falar de Du Bois, Rosa Parks, Malcolm X e Luther King? Por causa da luta desses e de muitos outros, hoje é possível vermos em uma mesma escola pública norte-americana – e de qualidade – pessoas de várias etnias e de diferentes condições socioeconômicas. Como parte do programa de intercâmbio, atuei como professor em classes multiculturais, sem deixar de lembrar que, aqui na minha terra, aquilo que presenciei ainda é um sonho: imigrantes pobres, estudando no mesmo espaço que os nativos estadunidenses abastados. Era inevitável o desejo de, um dia, podermos reunir, em uma mesma escola de Salvador, a periferia e a elite (escolas modelo à parte).

Voltando àquela observação feita pela família americana, o fato me fez perceber como a mídia contribui para a naturalização dos padrões. Nos acostumamos a ver as estrelas de pele alva na telinha, tanto que isso soava natural. E de tal modo que, quando uma emissora, recentemente, resolveu inserir uma negra na previsão do tempo, houve xingamentos nas redes sociais. E mesmo na Bahia, a pele dos âncoras da TV  contrasta com a da maioria de seus espectadores. Não é que nós – negros, pardos, indígenas – não estejamos lá. Estamos, mas em menor número e em outras funções e papéis. Idem nas telenovelas.

Voltando à nossa Lei Áurea, o que foi mesmo que ela nos legou? A “liberdade”. Sim, com aspas, mas sem emprego, sem moradia, sem educação, enfim, sem reparação! E como não dá para tratar neste texto de todas as questões, mais aprofundadamente, sugiro que levemos esse assunto para a sala de aula, com nossos professores de História, Filosofia, Geografia, Sociologia…

Referências:

LEI ÁUREA
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Áurea

MOVIMENTO DOS DIREITOS CIVIS DOS NEGROS NOS ESTADOS UNIDOS
https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_dos_direitos_civis_dos_negros_nos_Estados_Unidos

127 ANOS DA LEI ÁUREA
http://noticias.universia.com.br/cultura/noticia/2015/05/13/1125083/127-anos-lei-aurea-legado-abolico-escravatura.html

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino

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