Salvador: da ocupação dos espaços à urgência de ocuparmos espaço

Fala, comunidade!

Hoje, Salvador completa mais um aninho, são 469 anos de luta. Os desafios são enormes, principalmente no que se refere ao uso e ocupação de seu espaço geográfico (cartografia). Afinal de contas, existe uma cidade única ou uma cidade partida? Existe, na cidade do Salvador, espaços compartilhados, em que as estruturas de comércio e lazer são pensadas para usos comuns dos seus munícipes ou é possível pensarmos nesses espaços como áreas de exclusão? Depende. Devemos analisar, sobretudo, as estruturas que envolvem (historicamente) as relações sociais e econômicas nesses espaços, a mobilidade urbana em consonância a estas relações, a geografia urbana como metodologia de gestão pública, como epicentro dos fluxos e dinâmicas desta rede espacial. Nesse sentido é possível pensar a cidade do Salvador como sendo organismos independentes. As relações de capital influenciam diretamente em suas dinâmicas de ocupação e distribuição dos equipamentos urbanos. As nomenclaturas que foram criadas para denominar os espaços de poder (área nobre) e os espaços excluídos (periferia), na distribuição dos equipamentos urbanos e acessos à totalidade da cidade, podem definir um plano diretor justo e inclusivo? Segundo (ETIENNE at ALI, 1998) uma das definições possíveis do pobre seria “aquele indivíduo que não pode obter os bens de primeira necessidade, como a alimentação, alojamento e vestuário”. Sabemos que a pobreza é uma ideia relativa no tempo e no espaço, mas podemos afirmar que, quanto menos acessos aos equipamentos urbanos, equipamentos esses, necessários para a “sensação” de pertencimento ao espaço, ou seja, da construção de sua territorialidade, é preponderante para o arrefecimento dos processos de exclusão, o que neste sentido, pode-se denominar de “marginalidades”, ou seja, estar a margem dos processos desenvolvimentistas e de crescimento urbano. O que Didier Fassin (1996) denominou de “relação centro/periferia”, o que, a longo prazo, se não houver uma intervenção nos elementos distributivos, a tenência é que este sistema socioeconômico seja perpetuado de geração em geração.

Fig.01 Bairro das Palafitas. Foto: Peterson Azevedo

Pensando nestas estruturas de ocupação (partida) do espaço urbano da cidade do Salvador, podemos analisar de maneira objetiva as cartografias do município. Salvador é geograficamente dividida por áreas de poder (economicismo urbano), contrariamente a uma política cartográfica de bairros delimitados geograficamente. A palavra “bairro” pode ser definida como “uma categoria particular de ser geográfico, que provém do ‘espaço vivido’ de uma certa comunidade de pertencimento e de uma representação dela” (Brunet et ali, 1993). Mas para compreendermos melhor como se deu as primeiras configurações do espaço da cidade do Salvador, devemos voltar para nosso período colonial, este como marco de criação da cidade. Fernão Cardim, contemporâneo desse período, estimava que, em 1583, Salvador tinha 3.000 vizinhos portugueses, 8.000 índios e 3000 a 4.000 escravos de Guiné (Cardim 1978, in Vasconcelos, 2002). O que se pode perceber é que as relações de poder antecedem a gestão do espaço construído. Ou seja, os espaços foram sendo ocupados e organizados a partir das necessidades de moradia, abrigo e recursos (próximos ao litoral), em detrimento a um planejamento urbano organizado.

Em 1818, Salvador já apresentava um adensamento de aproximadamente 115.000 habitantes, em sua maioria escravos, comerciantes pobres e senhores escravocratas. População, essa, concentrada na linha de costa, mas já avançando em direção ao miolo da cidade, sem perder de vista a segregação étnica, uma vez que os senhores de escravos se concentravam nas regiões altas da cidade. No período da República e com a “libertação” dos escravos, o que se viu foi uma acelerada ocupação (em áreas periféricas) dos espaços da cidade, oriunda da vinda dos escravos libertos de outras regiões produtivas do Estado. No início do século XX, com a moderação dos equipamentos urbanos (eletricidade, sistema de transporte coletivo, como os bondes) e o início do processo de industrialização, a necessidade de planejamento da cidade se mostrou urgente. Foi quando surgiram os primeiros bairros operários na Cidade Baixa e no Subúrbio Ferroviário, além do adensamento populacional nos espaços da Liberdade, Penha e Brotas, que, na época, era considerado um bairro da periferia da cidade. Os espaços da Vitória, Barra, Graça e Canela eram tipicamente habitados pelos brancos ricos ( Pierson (1976), in Vasconcelos, 2002). Já em 1970, Salvador já apresentava uma população absoluta, que ultrapassavam a marca de 1 milhão de habitantes, fruto de uma intensa modernização dos aparatos urbanos e de desenvolvimento da indústria e do comércio, ocasionando grandes processos migratórios oriundos do interior do estado e da região Nordeste do país. Esse processo migratório ocasionou uma ocupação e uso desorganizado e subnormais dos espaços urbanos da cidade do Salvador.

Fig.2 Elevador Lacerda, Praça municipal. Foto: Peterson Azevedo

No final do século XX e início do XXI, a cidade vê seus espaços sendo ressignificados em direção norte da cidade . Com a construção da avenida Luiz Viana Filho (Paralela), a especulação imobiliária e novas áreas proletárias e de alto investimento começam a surgir, mesmo sem planejamento (desconsiderando um plano diretor inclusivo e ambiental) e sem critérios de ocupações bem definidos. Na contemporaneidade, perpetua-se ainda a manutenção excludente (como política pública) da “pobreza urbana” na cidade do Salvador. É urgente discutirmos uma cidade mais justa e igualitária em seus espaços, uma política participativa e colaborativa, levando em consideração a diversidade étnica e social, o uso, ocupação e atribuições adequadas ao espaço da cidade, sem privilegiar pequenas parcelas da população. É urgente ocuparmos os espaços da cidade partida!

Peterson Azevedo  Geógrafo, fotógrafo e professor da Rede Estadual da Educação da Bahia.

Referências:

POLANYI, Karl. A Grande Transformação : as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000 (orig. 1944).

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. ed. 2. Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Pobreza Urbana e a formação de bairros populares em salvador na longa duração. GEOUSP -Espaço e Tempo, São Paulo, No 20, p. 19 – 30, 2006.

Sistema de Informações Geográficas Urbanas do Estado da Bahia. Disponível em: http://www.informs.conder.ba.gov.br/. Acesso em: 20 de Março de 2018.

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