“A música serve para unir diferentes tribos e diferentes costumes”, diz o cantor e compositor Netto Galdino

Desde os seis anos de idade, Roberto Clarisseau Marcial Neto, o Netto Galdino, tem a música como a sua companheira. Nascido e criado em Caravelas, cidade do sul da Bahia, o cantor e compositor começou a carreira participando de projetos de educação e arte, em instituições como a Casa da Música, a Filarmônica Lira Santo Antônio e o Movimento Cultural Arte Manha. Aos 12, iniciou os estudos de violão, voz e coral, no projeto social Dona Flora, em Alcobaça. Tendo a sua formação educacional toda feita em instituições públicas (ele passou pela Escola Municipal Claudionora Nobre de Melo (Caravelas), pelo Centro Educacional de Alcobaça -CEA, pelo Colégio Estadual Eraldo Tinoco (Alcobaça) e pelo Colégio Polivalente de Caravelas), Netto acredita no potencial do ensino público da Bahia: “Sempre estudei em escolas públicas e tenho muito orgulho disso. Acho que o ensino tem seus problemas políticos, mas os professores e diretores tiram o máximo de resultado, mesmo com pouco recurso”, avalia.  O seu orgulho pela escola pública ficou ainda mais evidente quando participou de duas edições do Festival Anual da Canção Estudantil (FACE), projeto estruturante da Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC-BA): em 2014 (com a música O Jovem Nordestino, venceu na categoria “Melhor Canção”) e em 2015 (com a música Negritude, venceu na categoria “Melhor Intérprete”). Hoje, aos 22 anos, o caravelense mostra a sua maturidade artística no CD O Carnaval Começou, que acaba de lançar. Nesta entrevista exclusiva para o Blog da Rede, feita por e-mail, Netto Galdino fala sobre o conceito do trabalho musical que realiza, educação, arte e os planos para 2018: “Quero circular pela Bahia e pelo Brasil”. Não deixe de ler!

Fig. 1: Netto Galdino: cantor e compositor convive com a música desde criança. Foto: Márcio Bayer

Blog da Rede: Quando você percebeu que queria cantar?

Netto Galdino: Desde criança, estou envolvido em projetos sociais e filantrópicos na escola pública. Desenvolvi minhas habilidades de compor e interpretar nos projetos de música, feiras culturais e minifestivais escolares.

BR: O que você gosta de ouvir?

NG: Gosto de ouvir músicas de todos estilos. Crio referências de todos estilos musicais. Cada estilo tem sua peculiaridade, e nisso crio minha personalidade musical.

BR: Quais são os artistas da música que te influenciam?

NG: Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Bob Marley, Michael Jackson, James Brown, Djavan, Cartola, Toquinho, Vinicius de Morais, Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, Saulo Fernandes, Tomate, Carlinhos Brown, Timbalada, Gabriel O Pensador, Falamansa, Olodum, Ilê Aiyê e artistas locais [de Caravelas], como Daniel Show, Banda Pontal, Lordão e vários outros artistas. Sou bem eclético.

BR: Você participou do FACE em 2014 e em 2015. Alguém te estimulou a participar?

NG: Sim. Já tenho essa base familiar de fazer cultura na escola. Para mim, esses projetos foram um ponto de partida para o que já trazia de berço. Minha família é criadora e precursora de projetos sociais na região, que, com sua resistência, dura 30 anos na luta. Além de professores e diretores que já conhecem o trabalho e trabalham junto com a gente.

BR: Qual é a sua opinião sobre os projetos estruturantes da Secretaria da Educação do Estado da Bahia?

NG: Para mim, é de fundamental importância que a escola forme cidadãos profissionais, humanizados e com sensibilidade. Esses projetos, dimensionam em grande proporção a interação dos alunos para a coletividade, além de proporcionar intercâmbios culturais, ampliando o seu olhar para o mundo.

BR: Para você, qual a importância de introduzir música na sala de aula?

NG: “O que o mundo separa, a música une”. Por isso, acredito na ideia de que a música serve para unir diferentes tribos e diferentes costumes, da escola para o mundo.

BR: No início do mês, você lançou o CD O Carnaval Começou. Como foi a produção desse trabalho? 

 NG: Foi feito em coletividade, com amigos e parceiros. Em especial, o músico e produtor musical Paulo Junior, que nos ajudou com seus arranjos e sua boa vontade. Mesmo com pouca estrutura e pouco equipamento, demos o máximo possível e estou muito feliz com o resultado.

BR: Uma das músicas mais emblemáticas do CD é Negritude, que traz uma poesia de valorização negra muito importante. O que motivou a letra?

NG: O que me motivou foram as questões raciais, de gênero, sexualidades, intolerância religiosas. Essas questões nunca foram tão discutidas! O empoderamento negro, feminino e religioso na minha comunidade me fizeram escrever esse grito!

 

BR: O seu trabalho é marcado pela mistura musical. Contudo, quem ouve, percebe que predominam músicas voltadas para o Axé Music. Qual a sua opinião sobre a crise instaurada no gênero?

NG: Eu acho que o axé não é só um ritmo e sim um gênero musical que abrange vários estilos. Creio que a crise não é em todos o ritmos do gênero axé. O pagode baiano, por exemplo, continua forte nas paradas de sucessos. Creio que o problema é a apropriação cultural de alguns outros estilos musicais e falta de base social e de letras temáticas de alguns de nossos artistas que estão na mídia. Acho que toda crise é uma oportunidade de transformação, como diz Gil: “Morrenasce, trigo/Vivemorre, pão”.

BR: E o que você acha que deve ser feito para reverter a situação?

NG: Acho que estamos com a comunicação na mão e devemos ter resistência, focar no trabalho e divulgar. Quem não é visto, não é lembrado. Temos que trabalhar muito, pois as pessoas gostam de música de qualidade, sim. Falta investimento para esse tipo de público.

BR: Quais são os seus planos para 2018?

NG: Circular com espetáculos pela Bahia e pelo Brasil, produzir clipes temáticos, conhecer mais e me aprofundar nas nossas culturas.

 

Produção e entrevista: Raulino Júnior (professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia)

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