Um encontro para ouvir e planejar

Uma reunião ampliada, com o objetivo de ouvir críticas e sugestões de cineastas, roteiristas e produtores audiovisuais: essa foi a estratégia usada pela Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Dimas/FUNCEB) para pensar o conceito de seu próximo edital. E isso foi feito através do Encontro de Integração do Audiovisual, realizado hoje, no Instituto Feminino da Bahia, em Salvador.

Fig. 1: mesa de abertura do Encontro de Integração do Audiovisual. Da esquerda para a direita: Rodrigo Hita, Renata Dias, Alexandre Simões, Rômulo Cravo, Bertrand Duarte. Foto: Raulino Júnior

Rodrigo Hita (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação), Renata Dias (atual diretora da FUNCEB), Alexandre Simões (Superintendência de Promoção Cultural), Rômulo Cravo (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, que representou Jorge Portugal) e Bertrand Duarte (diretor da Dimas) participaram da mesa de abertura do evento. Bertand, inclusive, deixou claro que a ideia principal era promover um diálogo entre o órgão e os profissionais do audiovisual: “Não se pode pensar em fomentar cultura de maneira individual, impositiva”, declarou.

O cineasta Aly Muritiba ministrou a palestra O papel dos editais e o processo criativo, na qual falou um pouco de suas experiências profissionais e da importância do audiovisual: “O audiovisual é a indústria do século XXI”. Nesse sentido, afirmou que o funcionamento da área permeia todo os elos da cadeia produtiva, exige capacitação técnica, emprega de forma massiva, com bons salários, não pode ser substituída por máquinas, pois depende da criatividade humana, e ainda tem a vantagem de não poluir. Fomento para o Audiovisual no Estado da Bahia foi o tema da palestra de Alexandre Simões, que mostrou dados da política cultural e as ações para o fortalecimento e descentralização.

Cultura, Crise e Educação

Em entrevista para o Blog da Rede, Renata Dias, que assumiu recentemente a diretoria da FUNCEB, falou sobre os principais desafios da instituição neste cenário de crise em que o Brasil está. “A crise é econômica e, sobretudo, política. Eu acho que a gente está vivendo num momento de desconstrução, em nível nacional, de uma série de políticas públicas que a gente imaginava que estivessem asseguradas. Viver o golpe, para mim, foi muito emblemático, porque eu achei que política pública fosse algo extremamente fortalecido e difícil de ser extinto. Mas a gente vê, que a depender do interesse, as coisas rapidamente podem mudar. O principal desafio, nesse contexto, é engajar a sociedade na defesa da política pública. Estimular a institucionalização dos organismos de controle social é a forma que a gente tem de garantir e de fortalecer a política, sobretudo a política cultural. Meus principal desfaio é engajar a sociedade, sobretudo o segmento de cultura, na política pública, de forma que eles defendam isso”.

Fig. 2: Renata Dias, diretora da FUNCEB: “Meu principal desafio é engajar o segmento cultural na luta pelas políticas públicas”. Foto: Raulino Júnior

Para ela, a educação é essencial para o fomento da cultura: “A educação é um pilar essencial para o entendimento e a perpetuação da cultura. Educação e cultura são dimensões que andam completamente imbricadas. Uma se soma à outra no sentido de formar o cidadão para uma sociedade mais plural, mais diversa, mais equânime”, pontuou.

Encontro de Integração do Audiovisual

Reunir profissionais de uma área cultural para discutir problemas e propor soluções é sempre importante. Contudo, o que se espera depois disso? “A nossa expectativa é que depois desse Encontro de Integração do Audiovisual nós tenhamos um balizamento maior do que o mercado espera das categorias. Mas essa discussão não se encerra aqui. Isso aqui é um balizador das categorias. Nós tivemos muitas manifestações de que o [edital de] 2016 não foi tão justo. Muita gente, dentro da própria APC [Associação de Produtores e Cineastas da Bahia] fez alguns questionamentos; mas, ao mesmo tempo, a própria APC foi quem protagonizou esse processo da categoria até agora. O que a gente espera é que esse balizador seja mais um elemento positivo e democratizante, que venha trazer um espectro maior das categorias do edital, a exemplos dos games.

Fig. 3: “A discussão não se encerra aqui”, Bertrand Duarte

Sobre a relação do audiovisual com a educação, Bertrand é enfático: “O audiovisual, hoje, está em tudo, até em bula de remédio. É a grande indústria da atualidade. Não tem nada que supere o audiovisual. A escola não pode mais prescindir da utilização dessa ferramenta do audiovisual, porque já é fichinha você ter o audiovisual e usar  o cinema como ferramenta afirmativa do que é ser brasileiro, da diversidade que é esse país. De forma inteligente, usando o audiovisual, você pode tanto voltar a trazer para o público um sentimento de pertencimento, através do cinema, e usando também a própria linguagem audiovisual para educar e informar”.

Debates e plenária

Durante o evento, os produtores audiovisuais participaram de dinâmicas que tinham como intuito pensar nos caminhos para o edital de 2017. Divididos em grupos, eles deram sugestões sobre produções de série para TV, pilotos e protótipos de animação e games, comercialização para filmes de longa-metragem, capacitação, desenvolvimento de roteiro de longa-metragem, produção de curta-metragem, difusão (mostras, festivais, cineclubes), produção de longa-metragem e produção de telefilme. A produtora Loiá Fernandes, 28 anos, que integra o Coletivo Efeito, considerou a iniciativa do encontro bem positiva. “Para mim, foi importantíssimo, no sentido de a gente, enquanto fomentadores, contribuir para o processo de desenvolvimento dos editais. Principalmente, eu, enquanto mulher, jovem, negra, podendo me inserir. A gente sabe que o audiovisual, na Bahia especificamente, ainda é muito restrito a um grupo social. Estou buscando representatividade e acesso, para que pessoas como eu possam assistir e produzir cinema”.

Fig. 4: Loiá Fernandes: “Importantíssimo”, referindo-se ao evento.

Contudo, durante a plenária, apesar de muita gente ter achado a experiência válida, houve críticas relacionadas à metodologia empregada pela equipe da Dimas. De acordo com alguns produtores, não houve tempo suficiente para pensar nas questões importantes que foram colocadas em debate e que precisam de um aprofundamento maior. Bertrand reforçou que a discussão não se encerra com essa iniciativa e disse que todo o conteúdo produzido no Encontro de Integração do Audiovisual vai gerar um relatório, que será compartilhado com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e com o público.

 

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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