Olimpíadas, competição e cooperação

 

Podium

Fig. 1 commons.wikimedia.org 

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victory_podium.png

O Brasil está vivendo um momento ímpar de sua história, sediando os jogos olímpicos de 2016. É importante aproveitarmos essa oportunidade para refletirmos sobre os valores e subjetividades que participam da nossa cultura e que estão espelhados nessas competições. A sensação de vencer, ser o melhor, nos dá prazer e é, ao final, a mola mestra do nosso sistema econômico. Nildo Viana[1] afirma que “a competição é apontada como um produto social e histórico que gera uma sociabilidade e mentalidade competitivas cujo resultado é a naturalização desse fenômeno social”. Os jogos, de modo geral, são reforçadores desse processo.

A sociedade capitalista dá excessivo valor à concorrência, disputa e superação do outro e a “competição é seu elemento estrutural”[2].  Até pouco tempo atrás, era o vestibular quem definia quais os melhores estudantes do Brasil; hoje, é o Enem, mas a tônica é a mesma: preparar-se a vida inteira para competir por uma vaga nas melhores universidades, depois de formado vem a disputa por um emprego. Só existe lugar para os vencedores, no mercado de trabalho. Todo ano são divulgados hankings dos melhores alunos e universidades, muitas espalham outdoors pela cidade com fotos dos seus alunos campeões: é um pódio, quem não passa por essa seleção é taxado como perdedor. Os americanos têm um termo bem jocoso para designar essas pessoas: “loser”. A tradução é perdedor, derrotado. Não há lugar no topo para todos, logo, todos acham normal  que existam excluídos.

A semelhança com os jogos olímpicos não é mera coincidência, já que a Grécia é o país em que essas competições nasceram. A cultura grega influencia a nossa em diversos aspectos, os heróis e seus mitos de superação inspiravam os jovens a lutar e vencer seus adversários, consequentemente morriam cedo e eternizavam seu nome na história. Aos que tombavam nos campos de batalha, nenhuma glória: “losers”. O propósito desse texto é, ao final, provocar uma reflexão a respeito da ideologia que os jogos trazem. A TV mostra medalhas de ouro no peito dos vencedores, explora as características daqueles que superam seus  limites e batem recordes, quer que nossos jovens aprendam a vencer; mas o que sustenta essas vitórias é a derrota infringida ao outro, humilhar o adversário, fazê-lo tombar em campo. É, sim, a analogia de uma batalha em que, ao final, se estabelece uma hierarquia entre vencedores e vencidos  e tudo fica acomodado pelo “espírito esportivo”. Ora, saiba perder, eles  dizem.

Como professor, você já ouviu falar em jogos cooperativos? Isso mesmo! Trata-se de  uma prática esportiva que se preocupa em reforçar os valores sociais humanos, tais como reciprocidade  e solidariedade entre os membros do jogo. Conheça essa proposta e reflita sobre a necessidade de equilíbrio entre competitividade e cooperação na educação dos nossos jovens.

Assista ao GINGA, uma produção da TV Anísio Teixeira que explora a relação entre educação física, cultura corporal  e humanização.

Valdineia Oliveira

Professora da rede pública estadual de ensino

 

FONTES

[1] VIANA, Nildo. Educação Física, Competição e Sociabilidade Capitalista. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação – RESAFE. 2011.

[2] Idem 1.

BLANCO, M. R. Jogos cooperativos e educação infantil: limites e possibilidades. 181 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

CORREIA, M. M. Trabalhando com jogos cooperativos: em busca de novos paradigmas na Educação Física. Campinas: Papirus, 2006

ORLICK, T. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1989

Publicações relacionadas

  • Cine Pw: Mulheres do Brasil, Presente!25 de setembro de 2013 às 11:38 Cine Pw: Mulheres do Brasil, Presente! (0)
    Salve, salve, galera!! Você já sabe que com as revoluções e transformações socioculturais muitos dos nossos valores sociais mudaram a […]
  • Consumo: mais um Tema Transversal25 de dezembro de 2012 às 08:30 Consumo: mais um Tema Transversal (0)
    Olá, turma esperta! O consumo é a aquisição e gozo de bens e de serviços por parte de qualquer sujeito econômico, para satisfazer tanto as […]
  • Mapeamento de textura5 de setembro de 2013 às 11:23 Mapeamento de textura (0)
    Olá, pessoal! Como já foi mencionado em textos anteriores, a texturização é uma alternativa muito útil na simulação de superfícies e […]
  • A Educação Física além da BOLA26 de setembro de 2013 às 18:41 A Educação Física além da BOLA (0)
    O esporte é um fenômeno social, mas devemos esclarecer quais práticas esportivas são trabalhadas nos espaços educacionais, nesta relação: […]
  • ARTE AFRICANA21 de novembro de 2013 às 10:20 ARTE AFRICANA (0)
    Olá,galera! A Arte Africana é o retratar da vida dos povos africanos, de suas sociedades. Nada é por acaso. Arte vibrante, informativa e […]
  • Jogo dos Números (Matemática)27 de outubro de 2010 às 11:29 Jogo dos Números (Matemática) (0)
    Galerinha, Sabemos que nem todos tem afinidade com os números. A matemática se torna cansativa e às vezes difícil, mas desta vez iremos  […]
Olimpíadas, competição e cooperação

Nossos Colaboradores

%d blogueiros gostam disto: