Epidemia em Salvador (1918)

Fonte: Salvador, província da Bahia (Rodolpho Lindemann, 1875).

Fonte: Salvador, província da Bahia (Rodolpho Lindemann, 1875).

No início do século XX, a grande maioria da população soteropolitana vivia em condições mínimas de saneamento básico. Os esgotos a céu aberto eram a realidade da população carente que se aglomeravam em casas e prédios construídos de forma desordenada nos becos e vielas da cidade. A inexistência, na maior parte das casas populares, de água encanada, obrigava as famílias a ir buscá-la nos chafarizes espalhados na cidade e estocá-la em lugares impróprios, sem a devida higienização. As ruas quase nunca eram pavimentadas e raramente limpas pelas autoridades públicas, o que provocava o amontoamento do lixo nos cantos da cidade, sem que houvesse um sistema eficaz de coleta. Como se não bastasse as péssimas condições de saneamento básico, moradia e alimentação, o porto de Salvador era a porta de entrada para doenças vindas de outros países, trazidas por estrangeiros, a exemplo da gripe espanhola em 1918.

Nessa mesma época, Salvador vivia um vibrante processo de modernização dirigida pelo então governador da Bahia, José Joaquim Seabra (1912-1916). Ruas estreitas foram alargadas, como foi o caso da Avenida Sete de Setembro, em que sobrados e igrejas foram demolidas. Construiu-se um novo palácio do governo, uma biblioteca pública, um fórum, a secretária da Fazenda e o Hospital João de Deus. Na Cidade Baixa, deu-se continuidade ao aterro do mar, a derrubada de antigos prédios do século XIX e a construção do porto de Salvador[1]. Entretanto, para a melhoria das condições de vida da grande massa empobrecida, não havia recursos disponíveis, tão pouco interesse político. Dadas as condições de moradia da população carente, as doenças rapidamente se proliferavam, instalando-se nos corpos desnutridos da população pobre, cujos salários eram incapazes de fazer frente aos altos preços praticados pelos comerciantes que mercavam os gêneros de primeira necessidade. É que, com o advento da I Guerra Mundial, boa parte da produção de alimentos da Bahia tinha por destino os centros consumidores europeus, desabastecidos em razão da guerra.

A taxa de mortalidade na capital baiana era considerada alta para a época e as principais doenças relacionadas a essas mortes eram a difteria, a febre tifoide, o beribéri, a febre amarela, a gripe, a varíola, a peste, a malária, a tuberculose. Os médicos da época advertiam que, para minimizar a contaminação da população, era preciso uma ação enérgica do governo do estado, com políticas de conscientização de hábitos de higiene pessoal e doméstica. Paralelo a isso, era necessário a efetiva limpeza e drenagem dos córregos, das valas e dos riachos. Assim sendo, o ano de 1918 ficou marcado na História da Bahia em razão da epidemia da gripe espanhola. Centenas de baianos morreram sem cuidados médicos, porquanto os hospitais encontravam-se abarrotados e o contingente de médicos e enfermeiras era insuficiente para atender toda a população de enfermos. Não se sabe ao certo onde se originou a doença, ao que parece surgiu simultaneamente na América do Norte, China e Rússia e rapidamente se tornou uma pandemia, contaminando pessoas nos continentes africano, europeu e americano.

Atualmente, o Brasil vive um problema semelhante ao que acabamos de apresentar. O aedes aegypti, mosquito que ficou conhecido por transmitir o vírus da dengue, também transmite a febre chikungunya e o zika vírus. A proliferação da doença esta atrelada, dentre outros motivos, à manutenção de recipientes com água parada. Por isso, se cada um fizer sua parte e evitar esses criatórios do mosquito em sua própria casa, reduziremos muito o caso de pessoas acometidas por essas doenças!

Telma Santos

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

Fontes:

Souza, Christiane Maria Cruz de. A Gripe Espanhola na Bahia: saúde, política e medicina em tempos de epidemia/ Christiane Maria Cruz de Souza.– Rio de Janeiro, 2007. Tese (Doutorado em História das Ciências da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz – Fundação Oswaldo Cruz, 2007.

TAVARES, Luís Henrique Dias. 1987. História da Bahia, 8ª ed.,Editora Ática: São Paulo, 260p

 

 

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