O Hino e os Virunduns: “o virundum Ipiranga às margens plácidas”

Você já ouviu falar em Virunduns? Será esta uma palavra iorubá ou indígena? Não! Virundum é um neologismo cuja origem é uma leitura auditiva incorreta da primeira estrofe do Hino Nacional Brasileiro, quando se produz a homofonia “ovirundum Ipiranga às margens plácidas”. Em grande parte das torcidas esportivas, em movimentos políticos ou em outros gestos cívicos, certamente é possível ouvir este verso em vozes convencidas e entoadas.

Há também quem cante “Na madrugada a vitrola, rolando um blues ,tocando de biquíni sem parar”, quando a música é para seguir  “…cantando B. B. King sem parar. Este é apenas mais um virundum entre tantos que se pode colecionar e se divertir. Já o Hino Nacional repete muitos outros virunduns, basta que prestemos mais atenção.

Pela proximidade do Sete de Setembro, dia em que se comemora a Independência do Brasil e que se convencionou como um dia-de-ouvir-o-hino, fica oportuno trazer aqui uma conversa sobre a aprendizagem do hino nas nossas escolas. Observamos que atualmente jovens e adultos não conseguem cantá-lo nos contextos em que ele se adequa, e isso nos remete à uma reflexão sobre as práticas tradicionais de ensino, sobre as novas práticas e sobre o projeto de lei 5319/09, que obrigou escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio a hastear a bandeira e executar solenemente o hino, uma vez a cada semana. O projeto foi reafirmado em 2012 e, apesar disso, grande parte das instituições não realiza essa atividade regular e não há, pelo que podemos compreender, nenhuma sanção para este descumprimento.

Imagem: Josymar Alves
Imagem: Josymar Alves

O que vemos? Há uma clara desvalorização desses símbolos cívicos? Reconhecemos o desafio dos professores diante da tarefa de educar e, ao mesmo tempo,  homologaolver em seus alunos interesse cívico e sentimento de pertença (a este país em plena crise política), importantes para o bom exercício da cidadania.  Formar cidadãos é trabalho grandioso e exigente, envolve diversas ações mas para ensinar o Hino Nacional, atividade incomparavelmente mais simples, nos cabe, talvez, apenas pensar modos tantos de apresentá-lo aos alunos, nas situações em que possam compreender seu significado. O hino foi escrito e idealizado em 1831, tem uma linguagem arcaica e isso, claro, dificulta a compreensão das crianças e jovens. Contextualizar nos parece, portanto, fundamental para tornar acessível cada estrofe e a história que o texto traz. Quem hoje se arrisca a cantar o hino publicamente, com balbucio em um ou outro verso, talvez o faça sem ainda saber que “as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”. A ordem indireta da versão original, autoria de Joaquim Osório Duque Estrada, dificulta a compreensão clara e objetiva da mensagem. Trazê-lo em ordem direta, por exemplo, pode ser uma boa estratégia para atividade com este belo texto.

Sabemos que o desafio não é apenas de natureza didática e as escolas constantemente repensam seus tempos, espaços e função social dedicando-se ao objetivo de educar para a cidadania. Pode se considerar que ensinar e cantar o hino nas escolas perdeu a importância diante de tantos outros projetos e objetivos escolares e, sobretudo, diante da crise política que vivemos. Há, por isso, falta de canto e há um inegável desencanto pela terra-mãe. Apele-se, então, para a emoção de ouvir o Hino Nacional em voz brasileira e perceber que ali onde isso acontece, mesmo com tropeços na letra original e produção de virunduns, ele – o hino – nos diz que somos de uma mesma nação. Gerar a idéia de pertencimento é um dos seus sentidos.

 

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia