Aqui se diz…

Por estas ruas de 466 anos, uma língua passeia e conta a história desta cidade. Para além do molejo no andar, do sorriso mais fácil e largo e do modo alegre de viver, há em Salvador uma língua falada que nos representa. Esqueçamos a caricatura que muitas vezes assistimos nas emissoras de tevê e prestemos mais atenção ao vocabulário de nossa gente. Recusamos estas imitações que prezam por nos igualar a todos os nordestinos, afinal, Salvador tem uma língua própria, o baianês, como se costuma chamar.

manuela-rodriguesOxe” é uma das expressões mais utilizadas por aqui e suspeito que é exclusivamente nossa. Não cabe em situação de espanto, surpresa ou indignação usar outra palavra que não seja “oxe” e quando não há mais nada a dizer, vale até repetir “oxe-oxe-oxe…” que logo se dá ao interlocutor a dimensão exata do susto que um fato qualquer nos causou. Quanto maior o susto, maior a quantidade de “oxe(s)”. Se quiserem explicação, vai aqui uma apenas pra gente seguir nesta prosa sobre a língua dos baianos: “Oxe” deriva de “Ô gente” e é uma expressão do português arcaico; é abreviatura (de oxente) e nos identifica tanto que até é possível encontrar alguma música nossa com esta palavra. Escutem, por exemplo, o xote de Manuela Rodrigues e Álvaro Lemos e será impossível segurar o riso, pelo sentimento de pertença que ele pode te proporcionar. Você ouve, ri e até sente uma vontadezinha de dançar aí mesmo onde você está.

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Sim, é inegável. Os baianos gostam de brincar (e isto, alías, não se opõe a gostar de trabalhar, as duas coisas podem acontecer juntas, fato nada condenável). Inventar palavras parece a melhor das brincadeiras para os soteropolitanos, especialmente se elas de verdade conectam as pessoas, umas às outras. A gente se entende e para isso vale até atribuir o feminino onde, por princípio, não haveria, mas aqui “miseravão” vira “miseravona”, “bicho” vira “bicha” com a licença de muitos que pensam que se aqui se diz e aqui se compreende, tá valendo.

Uma conversa entre soteropolitanos é um espetáculo espontâneo, sem ensaios. É que os baianos usam muitos gestos para dar vida às ideias, usam todo o corpo como meio de expressão, característica que, não por acaso, também herdamos de nossos antepassados, os angolanos.

Aqui entre os nossos escutamos coisas como “abrir o gás” (ir embora, sair), “colé de mermo?” (O que é que você quer mesmo?), “aonde” (de jeito nenhum), “se plante!” (fique na sua), entre muitas falas de bastante originalidade.

“Vumbora” ou “Borimbora” é uma outra escolha predominantemente baiana. É a aglutinação de duas palavras e tem um efeito que pode tornar irrecusáveis alguns convites. A melodia da fala faz o comando e em geral o ouvinte escuta e segue. Em outras canções daqui é bem comum estas expressões e por esta razão arriscamos dizer que em nossa música está a nossa língua do mesmo modo que em nossa língua está a nossa música. Adriana Calcanhoto, ali perto, canta lindamente (Vem) “Vambora”, tão bem pronunciada na canção.

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E se o que se escuta é “Simbora Mais Eu”, aí então é indiscutível o valor desta associação porque a palavra “mais” realmente soma em significado. E aí, é quase fatal responder: – Sim – Simbora!!!

Simbora” comemorar o aniversário de Salvador, minha gente! Viva nossa língua, nossa cultura!

Lilia C. Carvalho Rezende

Educadora Rede Anisio Teixeira