SALVADOR SEDIA VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS SOBRE A DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO

Olá, turma!

Nos dias 01, 02 e 03 de agosto aconteceu em Salvador, no campus de Ondina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) o VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS SOBRE A DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO, promovido pela Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH), reunindo pesquisadores(as), ativistas brasileiros(as) e estrangeiros(as). Nesta edição o congresso teve o tema “Memórias, rumos e perspectivas dos estudos sobre a diversidade sexual de gênero” e foi considerado o maior encontro na história do evento.

O congresso contou com cerca de 430 trabalhos de pesquisadores(as) de diversos países, que foram apresentados em sessões de comunicação e mesas coordenadas e 12 trabalhos na mostra artística. Ao todo houve 10 eixos temáticos: Artes; Comunicação, Educação; Histórias, sociabilidades e etnografias; Literatura; Políticas; Religiões; Saúde; Subjetividades e Direitos. (fonte –UFBA)

Junto com os congressistas, a equipe do Professor Web esteve presente apresentando as peças educacionais produzidas pela TV Anísio Teixeira, em especial o Muito Prazer (programa que aborda a sexualidade a partir de orientações inseridas no eixo Direitos Humanos e Diversidade nas dimensões biológica e sócio-cultural), e realizando a cobertura das atividades.

Confira aqui as entrevistas com o presidente da ABEH, Prof. Leandro Colling e com o Prof. Mario Roberto Agostinho da Silva.

Professor Web: Podemos dizer que a heterossexualidade é uma construção cultural?

Leandro Colling: Sim, é também uma construção cultural.

O que é ser heterossexual? Eu não estou pensando nem só na prática sexual com quem você faz sexo. Não é só a prática sexual que define o ser heterossexual, é um conjunto de comportamento e de papéis sociais, que define o que é uma pessoa heterossexual.

Se na prática heterossexual você não tem um comportamento típico socialmente e culturalmente heterossexual, a sua heterossexualidade é colocada em questão, ela é colocada em dúvida.

Por isso que a discussão sobre a heterossexualidade tem que tá colada com a discussão de gênero, não dá pra descolar uma coisa da outra.

Por exemplo, na Índia, dois homens podem andar de mãos dadas tranquilamente e não serem considerados homossexuais ou agredidos por causa disso, como que acontece no Brasil.

Se você comparar dentro do nosso país, ou mesmo dentro do nosso estado, você tem certos comportamentos de homens e mulheres de Salvador que não são o do sertão da Bahia.

Se comparar com o estado em que eu nasci, o Rio Grande do Sul, é mais abissal ainda a diferença. Eu sempre brinco, mas é uma brincadeira séria, se os homens da capital baiana dançassem no interior do Rio Grande do Sul, todos eles seriam considerados homossexuais. Porque o rebolar é coisa de “veado”, o gaúcho dança estático, o seu quadril não mexe. Não é por ter uma biologia diferente dos baianos, não mexe porque foi absolutamente educado para não mexer o quadril, porque é coisa de mulher ou de “boiola”.

Então, esses exemplos evidenciam que a heterossexualidade não é apenas um dado da biologia, nem uma constituição fisiológica dos nossos corpos, ela é também uma questão cultural.

PW: Podemos dizer que há, também, uma gama de diversidades sexuais entre os heterossexuais?

L.C.: Sim. Existem várias maneiras de ser heterossexual. Outras configurações de sexo com mais de duas pessoas, com outras fantasias, com práticas que flertam o sadomasoquismo, por exemplo.

Existe a hegemonia de um modelozinho, muito fechadinho, quadradinho e que quer que todo mundo siga esse modelo. Na vida real esse modelo é muito mais diverso do que a gente imagina.

PW: Qual o perigo da heteronormatividade para o movimento LGBT?

L.C.: A hetronormatividade não é uma questão que incide apenas sobre os heterossexuais, ele incide sobre todos nós.

O que é heteronormatividade? É um conjunto de normas, de convenções sociais historicamente construídas, que criou um modelo muito rígido do que é ser alguém respeitado na sua orientação sexual e de gênero, dentro de um modelo heterossexual. Então, é um conjunto de normas a heteronormatividade, e não é o mesmo que heterossexualidade.

Um o sujeito pode ser LGBT e ser heteronormativo, ou seja, se comportar e atender essas normas.

Isso é um perigo por quê, respondendo a tua pergunta, porque a heteronormatividade, na minha leitura e na de muitos pesquisadores, é a causa do desrespeito a diversidade sexual.

A heteronormatividade não é o único inimigo, mas o inimigo central que devemos atacar, desconstruir, enfraquecer. Porque ele faz com que exista apenas uma maneira de ser no mundo, dentro de um modelo heterossexual.

PW: Qual a principal reivindicação dos movimentos LGBT hoje?

L.C.: Olha, tem uma gama de reivindicações.

O movimento LGBT não é uma coisa única, ele tem divisões. Mesmo dentro do L, do G, do B, do T, tem diversidade e é bom que tenha.

Então, tem várias reivindicações, mas as mais conhecidas são:

Criminalização da homofobia, lesbofobia, transfobia, é uma coisa que une os movimentos;

Um conjunto de políticas públicas que promovam o respeito à diversidade sexual e de gênero, como “Escola sem Homofobia”. Trabalhar a diversidade sexual e de gênero na escola, entendendo que ali é um lugar muito importante de formação de pessoas, porque não acreditamos que as pessoas nasçam homofóbicas, elas se tornam homofóbicas, por causa dessa normas tão rígidas. Então são duas pautas caras aos movimentos.

Também tem uma série de outras mais específicas:

A despatologização das personalidades “trans” que, segundo a professora Berenice Bento, trata-se de um gênero estar sendo considerado doente, no caso a transexualidade. Então, tem que retirar qualquer tentativa de patologização de um gênero, como é o caso da identidade “trans”.

PW: Professor Mario Roberto, o Sr. já foi discriminado por sua orientação sexual? Já passou por algum tipo de homofobia?

Mario Roberto Silva: Eu acho que por você ser diferente em qualquer aspecto passa por discriminação, mesmo que seja a “discriminação educada”.

Eu lembro uma vez que perguntei a um colega: as pessoas falam que sou afeminado ou alguma coisa assim?

Ele respondeu – Você é como se fosse uma “bicha fina” (risos). As pessoas falam de você, mas quando você abre a boca e começa a discursar, as pessoas se calam.

Isso é uma forma de discriminar.

Culturalmente o homem é aquele que senta com as pernas abertas, se você cruza as pernas é discriminado, é afeminado, é delicado.

Às vezes as pessoas veem que você tem uma forma mais carinhosa, mais atenciosa, dizem assim: “você é padre?”, ou seja, associam delicadeza à religiosidade. Isso é uma forma de preconceito.

Esperam de você uma atitude agressiva, estereotipada, do homem que fala alto, que grita. Se você fala manso, você é muito educado.

São várias formas de discriminação e acho que todos nós passamos por essa situação, seja quem for, independente da orientação.

PW: Existe preconceito e discriminação dentro do próprio movimento LGBT?

M.R.: Acho que em todo movimento existem facções e formas de expressão.

Algumas pessoas veem as outras de forma diferente. Assim, você verá que uma categoria, vamos dizer de professores, que tem professores com doutorado e com mestrado. São categorias que terminam se agrupando e se separando entre si, mas que tem o mesmo objetivo.

Você vai ver que tem uma categoria de crianças mais fortes, aquelas que agridem, e aquelas que se acolhem.

Em todo movimento existe separação e identificação internamente. O Mesmo acontece no núcleo familiar, você vê uma grande família, ela acaba tendo pequenos núcleos: aqueles que se relacionam melhor, mas se comunicam com o outro grupo que mora no outro bairro, e por aí vai.

É um fenômeno comum, que não é exclusivo de nenhum movimento, mas de todos os grupos.

PW: O que está achando do congresso?

M.R.: Acho que é uma proposta inteligente, onde se reúnem vários segmentos, pensadores, pessoas que estão na luta do cotidiano.

Creio que precisam ser dados passos principalmente na formalização. Sair do discurso de rua, vir com propostas, formulação de políticas e a reflexão sobre as necessidades do movimento.

Não é só a coisa do oba-oba, mas juntar saberes, discussões e práticas, não descartando nenhum saber, para que se possa caminhar com igualdade de direitos, pois somos todos iguais perante a Lei, perante Deus.

Acho que movimentos como esses abrem oportunidades de discussão.

No grupo que eu estava coordenando (Subjetividades, práticas sexuais e afetividades I) tinha uma pesquisadora que se declarou não-homossexual e disse que há uma falha do evento em estar comunicando a outros movimentos que não os ligados a causa em si. É uma pessoa que estava lá fora e se envolveu com a questão, e está tendo outro olhar.

Eu acho que nós precisamos ir além dos movimentos que estão constituídos, principalmente por ser um evento internacional que tá agregando vários saberes.

PW: Você acha que este tipo de iniciativa é importante para diminuir o preconceito?

M.R.: Toda ação que faz uma reflexão sobre atitudes minimiza o preconceito, a partir do momento em que você mostra para a sociedade que não existe só um lado da manifestação sexual. Porque um dos principais fatores de discriminação da manifestação da sexualidade é quando esta se torna diferente do que se estipula como normal. Então eu agrido aquilo do qual tenho medo e desconheço.

A partir do momento em que eu levo pra comunidade esse saber, essa manifestação da sexualidade pra dentro da academia através de uma discussão lógica, eu estou mostrando que existem várias interfaces. Não só aquela que a comunidade tá acostumada, que é ver alguém vestido com roupas femininas e ser descriminado e achar que aquele comportamento deve ser retraído. Mas ver aquela pessoa como um ser que contribui, que tem seus direitos, deveres e que pode se manifestar dentro da sociedade.

Eu acho que a universidade abrindo esse espaço cria-se um novo olhar. O evento é muito importante nesse sentido e outros mais. Acho que é tema pra muita discussão.

Querem saber mais sobre Sexualidade e Gênero? Cliquem aqui e conheçam o programa “Muito Prazer”, produzido pela TV Anísio Teixeira.

Confiram aqui algumas fotos do Congresso.

Um abraço e até a próxima!